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Amor nos tempos de Corona

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Não sei quanto a vocês, mas para mim está sendo bem difícil a adaptação a essa realidade pós coronavírus, que eu me recuso a chamar de "novo normal" porque não pode haver nada de normal no exercício de metalinguagem que é borrifar álcool para limpar uma garrafa de álcool. Vá lá que ficar trancafiado em casa tem as suas vantagens, como descobrir novos hobbies e desenvolver habilidades; o acesso limitado a restaurantes e padarias tem obrigado muita gente a aprender a cozinhar e assar pães em casa como se fazia antigamente, desde que antigamente se tivesse batedeira planetária e airfryer . Porém, enquanto escrevo estas linhas, a folhinha do calendário¹ marca o dia 23 de junho, portanto véspera de São João, o que me deixa profundamente nostálgico de comer um amendoim cozido, beber um licor de jenipapo, ter um apagão depois de beber por nove horas seguidas e não saber como o chapéu da cantora do Rala Fivela foi parar na sua cabeça², esse tipo de coisa. Note que não incluí

Bateu a dúvida

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Meu estimado amigo Chiquinho Cabeção sempre me disse que a vida do homem se divide em nascer, crescer, ficar besta, casar, ter filho e morrer. Como eu já ultrapassei a fase do "ficar besta" -- ultrapassei no sentido cronológico, pois continuo besta -- e vivo em união estável com minha consorte, posso apenas concluir que estou perigosamente me aproximando da fase do "ter filho", e por isso tenho meditado muito a esse respeito. Digo "perigosamente" muito mais pelo hábito. Embora eu já seja adulto -- ou nem tanto, digamos que eu apenas aprendi a me comportar de modo socialmente aceitável -- e financeiramente independente, foram muitos anos como adolescente tendo medo de engravidar uma... ah, quem estou querendo enganar? Eu não pegava ninguém na adolescência. Fato é que já estou na fase em que ter filho é de fato uma boa notícia, mas até algum tempo atrás era algo desesperador. Lembro de um amigo, que não revelarei o nome para proteger inocentes -- pens

Alterar, atritar e estabocar

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Talvez por contar com quase quinhentos anos de idade, Salvador mantém alguns costumes próprios da Idade Média, como cheiro de urina em algumas ruas, beber Nova Schin e eleger políticos feudalistas. Mas a característica mais tipicamente medieval da bela Soterópolis, creio, é a tradição dos insultos que antecedem brigas e altercações. Explico. É sabido que antes de se enfrentar no campo de batalha, os exércitos medievais trocavam ofensas, xingando-se mutuamente enquanto criavam coragem -- isso é, enchiam a cara -- para se lançar contra o inimigo. Da mesma forma, quando por qualquer motivo, razão ou circunstância precisa ir às vias de fato, o soteropolitano honra essa tradição centenária engajando-se em uma disputa de impropérios, que serve ao mesmo tempo para aquecer os lutadores e minar o moral do adversário antes da peleja. Assim, reproduzo a seguir um típico diálogo que pode ser ouvido nos momentos que antecedem uma luta na capital baiana, tentando na sequência esclarecer pa

Rise and Shine

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Eu tenho uma grave falha de caráter. Ok, os maledicentes dirão, não sem razão, que eu tenho mais de uma, mas para os propósitos deste texto vou me limitar a uma falha específica: sou bem humorado pela manhã. "Ah, Lionel, que drama", apontaria o incauto leitor que ignora a discriminação que a sociedade impõe às pessoas que não acordam desejando que um meteoro aniquile a vida no planeta se isso significar mais cinco minutinhos na cama. A verdade, contudo, é muito mais implacável. Nós, morning people , somos cruelmente marginalizados, como se tivéssemos culpa por acordar sem necessariamente desejar uma morte lenta e dolorosa para aquele sabiá cantando alegremente na janela. Aliás, tal como ocorre no caso dos cornos, o que temos aqui é um evidente caso de culpabilização da vítima. É claro que eu gostaria de ter pensamentos homicidas pela manhã como qualquer ser humano normal, mas nem sempre querer é poder. O fato é que, desde muito cedo aprendi que a melhor forma de e

Um chute atrás também te empurra para a frente¹

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E eis que minha consorte me deixou. E o pior é que, como diria Emanuel Kant , ela está na razão pura dela²: eu provavelmente também não me aguentaria por tanto tempo. Nesse ponto, aliás, sou como Groucho Marx : não sei se poderia namorar com uma pessoa disposta a namorar comigo , de forma que, concluo, o nosso acerto de comum acordo (no qual ela entrou com o pé e eu entrei com o derrière ) talvez tenha sido para melhor mesmo. É claro que essa racionalização não facilita em nada a minha vida, já que a recém adquirida solteirice me permitiu descobrir que minha habilidade para com o sexo feminino é similar ao meu desempenho no futebol: sou um excelente palpiteiro, mas uma negação com a bola nos pés. Por ora vou enganando a torcida, alegando que estou sem ritmo de jogo e estudando o adversário, mas suspeito que meus pífios resultados com o sexo oposto ainda renderão farto material para este blog. A conferir. -------- ¹ O texto é antigo, mas a situação é basicament

Nascida em 3 de Julho

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- Olha lá, entrou outro médico! Quem me conhece sabe bem que o raciocínio rápido é uma das minhas características mais marcantes. Então, reuni toda minha presença de espírito para oferecer a resposta mais sagaz que me ocorreu: - Oi? - Outro médico! Entrou mais um médico na sala de parto, agora são três lá dentro, você não viu? – exclamou Maurício novamente em voz alta, despertando a sonolenta sala de espera do hospital Santa Lúcia. - Olha, eu admito que não sou nenhum especialista na área de saúde, mas, sendo isto um hospital, não é meio esperado que tenha médicos? - Mas por que três na sala de parto de Micheli? Será que os dois primeiros não sabiam o que estavam fazendo? Tem alguma coisa errada, eu posso sentir! E se for alguma complicação? E se precisar usar fórceps? - Calma, vai ver um deles é, sei lá, estudante de medicina e está acompanhando o procedimento para aprender. -- refleti, tentando acalmar a situação. Maurício já estava praticamente grudado no teto de tã

Do Tipo Cara Valente

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Era uma fria noite sem lua, estranhamente silenciosa. Um calafrio percorreu a minha espinha quando pus a chave na fechadura. Havia algo estranho no ar, mas eu não conseguia bem definir o quê. Abri a porta com cuidado, respirando lentamente, quando minha doce e zoólatra esposa anunciou: - Olha quem chegou! Valente, vá receber ele na porta! E foi então que eu vi. O emissário do Tinhoso, o representante do Capiroto, o estagiário do Pata Rachada, a besta enviada para me fazer pagar pelos meus pecados que atende (quando quer) pelo nome de Valente, embora eu ache que "Cérbero" teria sido mais apropriado. Contemple seus olhos vis e cruéis, seu semblante de pura maldade É claro que nesse primeiro momento eu não fazia ideia de que aquela criatura era o mal encarnado; na minha inocência, achei que se tratava de um simples cachorro, obtido quem sabe em um pet shop ou numa feira de adoção -- não passou pela minha cabeça que ele poderia ter vindo diretamente dos