Rise and Shine

Eu tenho uma grave falha de caráter.

Ok, os maledicentes dirão, não sem razão, que eu tenho mais de uma, mas para os propósitos deste texto vou me limitar a uma falha específica: sou bem humorado pela manhã.

"Ah, Lionel, que drama", apontaria o incauto leitor que ignora a discriminação que a sociedade impõe às pessoas que não acordam desejando que um meteoro aniquile a vida no planeta se isso significar mais cinco minutinhos na cama.

A verdade, contudo, é muito mais implacável. Nós, morning people, somos cruelmente marginalizados, como se tivéssemos culpa por acordar sem necessariamente desejar uma morte lenta e dolorosa para aquele sabiá cantando alegremente na janela.

Aliás, tal como ocorre no caso dos cornos, o que temos aqui é um evidente caso de culpabilização da vítima. É claro que eu gostaria de ter pensamentos homicidas pela manhã como qualquer ser humano normal, mas nem sempre querer é poder.

O fato é que, desde muito cedo aprendi que a melhor forma de evitar a discriminação por essa falha imperdoável é fingir mau humor pela manhã, a fim de se misturar com o ser humano médio.

Assim, meus colegas de trabalho que já se acostumaram a me ver de fones de ouvido logo cedo decerto acreditam que eu estou ouvindo música pois estou mal humorado demais para conversar, mas a verdade é que tenho receio que mesmo a menor interação seja suficiente para detectarem meu humor matinal pouco ortodoxo.

O que eu faço, portanto, é agir como o apresentador de um daqueles documentários do Discovery Channel em que o sujeito se veste de urso panda para se misturar aos bichos e descobrir por que diabos eles não estão transando (não sei a resposta, mas também não vi o Discovery ter essa preocupação toda comigo durante a minha adolescência).

Nessa posição de observador eu já compreendi e venho tentando mimetizar a forma como os seres humanos normais se comunicam no turno da manhã, que consiste basicamente em responder qualquer pergunta murmurando algo sobre ainda não ter bebido café. Venho fazendo isso já há alguns anos e continuo surpreso pois até hoje ninguém questionou o fato de que uso essa desculpa mas nem café eu bebo.

Porém, viver nesse permanente estado de tensão, sempre temendo ser descoberto como pessoa matinal é causa de muito estresse, algo que não desejo para ninguém. Na verdade, tenho até receio que seja uma característica genética e que minha prole eventualmente sofra o cruel julgamento da sociedade como eu sofro.

Assim, venho ponderando também se haveria algum tipo de vacina ou antídoto capaz de curar esse mal, ou ao menos impedir que ele se desenvolva nas futuras gerações, poupando-as de tanto sofrimento.

Confesso que meus experimentos nesse sentido não seguiram propriamente o método científico, mas as primeiras conclusões que tive depois de uma série de experimentos com minha nova companheira apontam que o melhor remédio para curar o bom humor matinal é, ironicamente, bom humor matinal: nada é tão eficiente para proporcionar mau humor do que ser acordado com pessoas alegres e passarinhos cantantes como se estivéssemos em um musical da Disney.

Então, como autonomeado expert no assunto, faço um apelo aqui: acorde seus filhos com música, sorrisos e comentários sobre a bela manhã que está fazendo. Somente esse trauma impedirá que eles venham a sofrer desse terrível mal que é o bom humor.