Nascida em 3 de Julho

- Olha lá, entrou outro médico!

Quem me conhece sabe bem que o raciocínio rápido é uma das minhas características mais marcantes. Então, reuni toda minha presença de espírito para oferecer a resposta mais sagaz que me ocorreu:

- Oi?

- Outro médico! Entrou mais um médico na sala de parto, agora são três lá dentro, você não viu? – exclamou Maurício novamente em voz alta, despertando a sonolenta sala de espera do hospital Santa Lúcia.

- Olha, eu admito que não sou nenhum especialista na área de saúde, mas, sendo isto um hospital, não é meio esperado que tenha médicos?

- Mas por que três na sala de parto de Micheli? Será que os dois primeiros não sabiam o que estavam fazendo? Tem alguma coisa errada, eu posso sentir! E se for alguma complicação? E se precisar usar fórceps?

- Calma, vai ver um deles é, sei lá, estudante de medicina e está acompanhando o procedimento para aprender. -- refleti, tentando acalmar a situação.

Maurício já estava praticamente grudado no teto de tão exaltado:

- Você quer dizer um estagiário? Está dizendo que colocaram um estagiário para fazer o parto?! Quem me garante que ele sabe manejar o fórceps? Eu sabia, eu sabia, me disseram que quando o pai é alto, o bebê nasce muito grande e precisa de fórceps! A culpa é minha!

- Ué, mas o parto vai ser cesárea, não precisa de fórc...

- OH, A CULPA! POR QUE A CRIANÇA DEVE PAGAR PELOS ERROS DO PAI?

Nesse momento uma enfermeira apareceu na sala de espera, fez aquela cara que a gente faz quando vê um sujeito de um metro e noventa gritando praticamente grudado no teto da sala de espera e disse:

- Sr. Maurício, o parto vai começar agora...

- Agora? AGORA?! E o que eles estavam fazendo lá dentro esse tempo todo, jogando dominó?

- Acho que pra jogar dominó precisaria de mais um médico, não? Quer dizer, a menos que Micheli resolva jogar também. – ponderei, analisando com frieza a situação posta.

- Não, Sr. Maurício, eu quis dizer que o bebê vai nascer agora, caso o senhor queira entrar para acompanhar o trabalho...

- Acompanhar o trabalho? Não, minha querida, eu já acompanho estagiário fazendo besteira no meu próprio emprego, não vou ficar aqui ensinando um moleque cheio de espinhas a manejar um fórceps! Se ele não sabe o que fazer, arrumem um médico que saiba!

- Uai, agora você quer que entre outro médico? – intervim mais uma vez, sempre buscando ser a voz da razão, enquanto a enfermeira dava de ombros e voltava para a sala de parto.

- Onde já se viu, querer que eu entre? Já não tenho muito com que me preocupar aqui fora, ainda mais sem saber como está a situação lá dentro?

Eu não via Maurício tão transtornado desde a época em que Agnaldo Capacete jogava de centroavante no Vitória, então decidi não contrariar:

- É muita pachorra mesmo.

- Não é à toa que a saúde deste país está desse jeito. Eu aqui aflito e ninguém dá notícia sobre o que está acontecendo lá dentro!

- É muito descaso mesmo.

- Isso é porque eu sou o pai, o pai é sempre discriminado. Enquanto a mãe fica lá deitada tranquilona, cheia de mimos e paparicos, eu fico aqui me estressando sem uma satisfação sequer!

Maurício estava quase chegando no lustre de novo quando a enfermeira retornou à sala de espera com um sorriso largo:

- Parabéns, Sr. Maurício! O parto foi um sucesso, é uma linda menina!

- Menina? Ufa, ainda bem! Não vai passar o perrengue que eu passei...!

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Esse relato 100% factual foi escrito em homenagem aos meus queridos amigos Maurício e Micheli, como um presente pela chegada de sua filhinha Laura.

Conhecendo Maurício como eu conheço, provavelmente ele vai dizer que preferia o presente em fraldas, mas o que tem pra hoje é o texto mesmo.

Parabéns aos dois e seja bem vinda, Laurinha!