Seco por uma Desculpa

Desde a publicação do último texto, recebi incontáveis e-mails questionando por que tenho demorado tanto para atualizar o Blog.

Ok, não foram incontáveis e-mails, foram só uns poucos, vindos dos leitores mais ávidos.

Tá bom, tá bom, foi só uma mensagem no celular. Do meu irmão.
Acima: minha credibilidade.
Ironias fraternas à parte, fato é que o Falta de Esculhambação não tem tido muitas atualizações porque minha vida mudou completamente nos últimos anos, comprometendo um pouco o meu tempo livre para escrever: mudei de Salvador para Brasília, casei e arrumei um novo emprego com atribuições mais complexas que as do censor da ditadura que analisava as letras de Djavan.

"'Zum de besouro, um imã?' Desisto, vamos voltar à democracia"
Ok, isso também é mentira. Até o momento, o ponto alto e mais trabalhoso da minha carreira de funcionário público foi o dia em que encontrei um sariguê¹ preso no duto de ar condicionado, e fui informado que para tirá-lo de lá eu teria que fazer um memorando para o meu superior, que acionaria a Consultoria Jurídica, que oficiaria ao IBAMA, que pediria um parecer ao Ministério Público, que por sua vez consultaria o Controle de Zoonoses, que então mandaria seu Everaldo lá da portaria soltar o bicho no mato.

Essa, aliás, parece ser a grande diferença entre meu trabalho atual e o anterior: tudo no serviço público é lento e burocrático, como naquela história do serial killer Carl Panzram, que foi sentenciado à morte e reclamou da demora no próprio enforcamento dizendo algo como "anda logo, no tempo que você enrola aí eu já teria matado uns dez".

Nada ilustra tão bem a agilidade da iniciativa privada frente à lentidão do serviço público quanto um condenado à morte se gabando da sua eficiência em comparação com o próprio executor.

Então não, eu realmente não posso dizer que o trabalho está impedindo as atualizações do FdE. Como não sou suicida ou louco a ponto de pôr a culpa na vida a dois com minha doce e pacífica esposa, só sobra uma explicação: eu ainda não estava adaptado à nova cidade.

Não me entendam mal: a qualidade de vida por aqui é muito boa. Depois que você se acostuma com algumas peculiaridades, Brasília é bem agradável, estruturada e organizada como nenhuma outra cidade brasileira...

Mas não é para amadores
...exceto na primeira chuva após o período de seca, quando a sociedade moderna se desintegra e nós subitamente decaímos para a Idade das Trevas.

Para os não iniciados na cultura candanga, esclareço: todos os anos, durante uns cinco ou seis meses, Brasília fica mais seca que língua de periquito: gargantas travam, narizes sangram, vacas dão leite em pó e quem se mete a fazer exercício sua sal grosso.

Mas então, lá pelo mês de setembro ou outubro, repentinamente volta a chover, e o povo brasiliense coletivamente enlouquece. É curioso, mas parece que nos cinco ou seis meses de estiagem parte da população do Distrito Federal esquece da existência desse fenômeno meteorológico e entra em franco desespero ao constatar que Ó MEU DEUS, ESTÁ CAINDO ÁGUA DO CÉU.

O exemplo mais óbvio disso está no trânsito: a primeira chuva pós-seca inevitavelmente vem acompanhada de engarrafamentos, acidentes, carros passando por cima dos canteiros e pessoas desesperadas pedindo clemência ao firmamento, pois algo tão bizarro e incomum como água vinda de nuvens não pode ser natural.

Nem tudo é desespero, no entanto: há aqueles que parecem ter perdido as esperanças de um dia voltar a ver umidade, e ao verificarem que de repente está caindo água do céu, aplaudem vigorosamente e soltam gritos entusiasmados de comemoração.

Foi justamente aí que residiu minha maior dificuldade de adaptação em meus primeiros anos na capital federal. Toda essa história de bater palmas para fenômenos meteorológicos me pareceu um tanto bizarra a princípio, coisa de hippie carioca que ovaciona o pôr do sol.

Então, no meu primeiro ano morando por essas bandas, fiz pouco caso disso e ri de toda a empolgação candanga com a precipitação pluviométrica.

"Céu de Brasília, gosto tanto dela assim"
VAI PROCURAR UM JEGUE CANHOTO, DJAVAN
No segundo ano eu mantive um silêncio respeitoso e não ri nem falei nada.

No terceiro ano eu já esbocei um grande sorriso quando vi o céu nublado em agosto, e demorei bem uns dois minutos até perceber que a nuvem na verdade era fumaça dos incêndios provocados pela seca.

Este ano já está decidido, vou puxar a primeira salva de palmas -- e ai do forasteiro que resolver rir de mim.

É, parando para pensar, acho que já estou bem adaptado ao centro-oeste. Preciso de uma nova desculpa para não escrever.
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¹ Também conhecido como saruê.