Ao Mestre, Com Carinho


Eu não vou mentir a vocês: meu primeiro contato com um livro de João Ubaldo Ribeiro foi forçado goela abaixo. Eu era um garoto imberbe, e ler Sargento Getúlio era só mais uma das obrigações enfadonhas da escola roubando tempo que poderia ser ocupado jogando bola, dançando break ou seja lá o que as crianças faziam nos anos oitenta.

Assim, minha primeira vez com João Ubaldo não foi das melhores – como sói ocorrer com primeiras vezes –, obviamente muito mais pela minha própria inexperiência como leitor do que por alguma falta de habilidade do mestre baiano com as letras.

Alguns anos se passaram e eis que eu descubro na estante do meu pai um livro com um título tão genial e inusitado que o jovem Lionelzinho não teve a menor chance contra a curiosidade adolescente: seu nome era Arte e Ciência de Roubar Galinha.

Umas poucas páginas já foram suficientes para enterrar de vez todo o meu preconceito contra autores exigidos pela escola e cobrados pelos vestibulares. Toda a ojeriza cuidadosamente cultivada por professores de literatura que empurram clássicos cedo demais a alunos que ainda não têm a bagagem necessária para compreendê-los caiu por terra no meu primeiro contato com Zé de Honorina, Luiz Cuiúba, Sete Ratos, Bentão e muitas outras figuras.

Naquela altura, meu gosto pela leitura já estava bem mais consolidado, mas posso dizer sem medo de errar que as crônicas de João Ubaldo foram as grandes responsáveis por despertar minha vontade de escrever – sendo, portanto, indiretamente culpadas por eventuais crimes contra a língua portuguesa cometidos neste Blog.

“Arte e Ciência de Roubar Galinha” também me fez correr atrás de outros textos de João Ubaldo, devorando sua coluna semanal no jornal, seus outros livros de crônicas e romances – além de abrir a minha mente para os clássicos cobrados em aulas de literatura que até então eu ignorava por puro preconceito.

Mas agora, o escritor que tanto me ensinou, tantas risadas me proporcionou e tantas alegrias me deu se foi, e eu me vejo desnorteado e sem saber bem o que fazer quanto a isso.

Não sei se é pretensão para um blogueiro com meia dúzia de leitores como eu escrever um texto sobre um Imortal da Academia Brasileira de Letras, um dos grandes escritores brasileiros de todos os tempos, que tanto influenciou meu estilo.

Na verdade, nem sei se é pretensão minha simplesmente afirmar que meu "estilo" foi influenciado por ele.

Não sei se tenho direito de chorar por uma pessoa que nunca conheci pessoalmente, mas cuja morte me deixa triste como se tivesse perdido alguém da família, tamanha era a humanidade contida em seus textos e a empatia que eles despertavam.

Também não sou crítico literário nem especialista na obra de João Ubaldo, não tenho cacife para estimar o tamanho da perda para a literatura baiana e nacional. São muitas dúvidas e não sei a resposta para nenhuma delas.

Só sei que tenho saudades, e que vou atravessar o resto da vida com essas saudades.