Guarda-Chuvinha no dos outros é refresco

Em textos passados, já externei por estas bandas minha preocupação com a idade, muito embora conte hoje com pouco mais de trinta primaveras.

Essa inquietação aparentemente precoce não decorre, vejam bem, de alguma vaidade exacerbada de minha parte, até porque há muito eu já me conformei com o fato de que, na loteria genética da família, meu irmão ficou com a beleza e o talento musical, enquanto eu fiquei com a gastrite e os dentes tortos.

Na verdade, eu diria até que minha apreensão com a questão da idade tem fundamentos bem altruístas: se eu já sou ranzinza hoje, é pouco provável que os anos me tornem uma pessoa mais agradável de se conviver.

Outra questão que me causa certa aflição é o famigerado exame do toque retal. Em priscas eras, eu inocentemente acreditava que, quando chegasse a minha vez, ele já teria sido substituído por raios-x ou um comprimido anti-câncer de próstata.

Na minha ingenuidade, sempre ponderei ser inconcebível a humanidade conseguir tirar fotos em alta definição de Marte, mas não fazer ideia do que se passa no meu esfíncter sem se valer de uma invasiva dedada, ainda mais sem pagar o jantar e um cinema antes.

No entanto, meu caro amigo Zé Tadeu tratou de jogar por terra minhas esperanças ao explicar, didaticamente, que uma foto, por melhor que seja, não é tão boa quanto o tato na hora de captar a textura de algo pequeno como um pequeno grão de areia.

Confesso, entretanto, que teria aceitado essa explicação com muito mais tranquilidade se Zé não gesticulasse tanto e tivesse o dedo um pouco menor.


Contudo, nada me deixa mais preocupado com a idade quanto a fraqueza para bebidas alcoólicas que desenvolvi recentemente. 

Não quero me gabar aqui, mas enquanto vocês seres humanos normais precisam gastar fortunas com bebidas para ficar mais relaxados, eu ultimamente tenho me tornado completamente inimputável só de olhar para o rótulo de uma Kronenbier.

Quem vem acompanhando de perto esse grave sintoma de velhice, como não poderia deixar de ser, é a minha doce e serena esposa, que não raro é obrigada a presenciar cenas lamentáveis e ressacas incapacitantes, como que a me afligiu quando acordei com ela pintando as unhas na semana passada:

- Ô mulher, diminui esse barulho infernal de pincel de esmalte, que eu acordei numa ressaca daquelas. Pense num gosto de cabo de guarda-chuva na boca.

- Bom, então talvez  fosse melhor se você não tivesse engolido os guarda-chuvinhas decorativos dos drinques que tomou.

- Mas hein? Mulher, eu não tomo drinques decorados com guarda-chuvinhas. Aliás, eu também não sei de onde você tirou essa história de "drinques" como sinônimo de bebida alcoólica, você sabe que eu sou cabra macho, criado na mais macha tradição do semi-árido nordestino. Nem mesmo bêbado eu iria aceitar um drin... digo, uma bebida com guarda-chuvinha.

- Bom, essa história da macheza meio que já tinha ido para o saco muito antes dos guarda-chuvinhas, quando você dançou Sidney Magal.

- Oi? Não, você entendeu errado, eu não estava dançando. Aquelas palmas foram porque eu estava tentando matar uma muriçoca. Obviamente.

- Entendi. E a rosa na boca, suponho, era para atrair o mosquito para sua armadilha. -- pontuou minha doce e zombeteira consorte -- Mesmo assim, isso não explica por que você ficou imitando Batman no fim da festa.

- Batman?!

- Sim, você ficava correndo pelas mesas gritando "tandandandandandandan... BATMAN!"

- Eu?

- Às vezes você simplesmente pulava e falava com voz de fumante com câncer na garganta "I'M BATMAN!!!"

- Não era fumante, eu estava imitando Christi...

- Isso foi pouco depois de você monopolizar a jukebox e gastar trinta e oito reais para ouvir Deep Purple.

- Foi? Eh, quer dizer, não vejo nada de errado nisso, é uma excelente banda -- argumentei.

- Lionel, era uma festa infantil. Você jogou no lixo o disco de Patati Patatá para poder ouvir Highway Star dezenove vezes seguidas.

- Festa infantil? Bom, pelo menos isso explica o Batman.

- Não, não explica. O tema da festa era Princesas da Disney -- argumentou minha doce e arguta cônjuge, encerrando a conversa.

Oficialmente eu venho atribuindo essa fraqueza para o álcool ao clima seco de Brasília, que claramente comprometeu a composição química do meu fígado[citation needed], mas a triste verdade é que eu realmente estou ficando velho. Daqui a sete anos terei que me submeter ao exame do toque onde mamãe passou talquinho e nem sequer poderei tomar um drinque antes para relaxar.