Aglomerada solidão


Durante meu breve retiro espiritual -- período no qual vocês estiveram livres da perniciosa influência deste blog --, pude visitar meu estimado amigo Jotapê na cidade de São Paulo, oportunidade em que cumpri à risca todos os programas turísticos obrigatórios da terra da garoa: comi pastel de vento, fui ludibriado por um taxista e enfrentei um aprazível engarrafamento de 202 km.

Não obstante tais prazeres, nada me impressionou tanto quanto a dieta básica do paulistano médio, consistente de fast food, pizza, churrasco e outros morbíficos que autorizam meu cardiologista a já comprar um carro novo por conta. Fruta, só o limão da caipirinha. Alface é um mito, mais ou menos como Scarlett Johansson: uns dizem que já viram, uns poucos falam até que já comeram, mas no final concluem que é só invenção de Hollywood mesmo.

Contudo, quando em Roma, como os romanos. Assim, sedentário convicto e praticante que sou, não tardei a me adequar aos costumes e tradições locais, de modo que minha alimentação naqueles sofridos dias consistiu essencialmente de feijoada, picanha e cerveja. E ainda dizem que paulista não tem qualidade de vida.

Aliás, João Ubaldo Ribeiro -- seguramente um dos meus escritores preferidos, o qual voltará a receber convites para escrever neste blog tão logo meus advogados derrubem a medida cautelar que me impede de chegar a 100 metros dele -- certa feita escreveu uma crônica na qual apontava a sua péssima qualidade de vida, em razão da sua predileção por doces, frituras e carne.

Conta o mestre que, diante da insistência de sua família e junta médica, viu-se obrigado a rever sua qualidade de vida, passando a fazer exercícios e entregar-se aos prazeres de comer capim no almoço -- tudo visando prolongar "uma existência que poderia ter sido estragada por feijoadas, macarronadas, vatapás, sorvetes e pudins, além de diversões doentiamente sedentárias".

Concluo, assim, que "qualidade de vida" é um termo fluido; pessoas diferentes têm ideias diferentes sobre o seu significado. Mais que isso: têm ideias distintas sobre sua importância. Tomo como exemplo o caso do meu ilustre anfitrião Jotapê, que saiu da Bahia para trabalhar em um banco na capital paulista, e vinha labutando mais que gari na quarta-feira de cinzas.

Embora estivesse indo muito bem profissionalmente, sua adaptação à cidade de São Paulo não foi tão boa, de modo que não pensou duas vezes quando recebeu uma proposta para retornar a Salvador. Seu então chefe, contudo, tentou demovê-lo da ideia:

- Você está louco? Tem certeza que vai aceitar essa proposta?! Ficando em São Paulo você pode chegar até a superintendência do banco! E vai trocar isso pelo quê? Voltar para Salvador, ficar perto da família, perto da praia, ter mais tempo para você, ganhar mais? Só por isso? Você está fazendo uma grande besteira!

Apesar desse conselho altruísta, Jotapê prontamente aceitou a proposta e já está de novo em Salvador. Bom para ele. Desconfio que já tinha pelo menos uma pessoa de olho na vaga, só esperando a desistência para poder fazer a besteira no lugar dele.