Sinal dos tempos (continuação)

(Continuação desta postagem. Vamos fingir que eu escrevi "continua mês que vem" e não "continua amanhã" e seguir normalmente com nossas vidas).

Pois bem, eis que, certa feita, entreouvi Helder e Breno em plena Resenha Pós-Carnaval, discutindo qual dos dois teria sido mais bem-sucedido durante os festejos momescos.

Para os não versados na cultura baiana, esclareço: uma das mais belas e importantes tradições soteropolitanas, a Resenha Pós-Carnaval é um ritual seguido à risca por milhares de foliões ao fim da festa de Momo, que consiste basicamente em contabilizar quantas conquistas ao sexo oposto cada um realizou, declarando-se ao fim o vencedor. Tudo com muita classe, claro.

Voltando ao ponto, a dupla de imberbes discutia ardorosamente acerca da aceitação ou não de uma dama de poucos predicados como ponto válido para Breno. Eis então que, com uma celeridade que deveria servir de exemplo para os juízes e tribunais pátrios, fui eleito árbitro daquela contenda -- cabendo-me a difícil tarefa de decidir se a moça era suficientemente bela para figurar na pontuação final, ou suficientemente feia para sequer ser classificada como "ser do sexo feminino", hipótese na qual seria contabilizada como ponto negativo.

"Mas eu não estava lá, não presenciei o fato nem conheci a distinta senhora" -- argumentei -- "não tenho como emitir opinião."

"Ora, Lionel", interjecionou Helder, emendando com uma frase que eu já devia estar acostumado a ouvir a uma altura dessas de minha vida: "não seja idiota. Tenho aqui comigo uma foto do Exu Tranca Rua com quem Breno se atracou em plena Praça Castro Alves!"

Sim, caro leitor. Rompendo com as históricas tradições da Resenha Pós-Carnaval, o destemido ato de Breno houvera sido registrado para a posteridade pela câmera do celular de Helder. O que costumava ser apurado apenas através do depoimento de testemunhas e interrogatório do acusado passou a ser, com a massificação das câmeras digitais, documentalmente comprovado.

Chamem-me de saudosista, mas onde foi parar a resenha moleque, a resenha de várzea, na qual a discussão sobre a validade ou não de um único ponto poderia durar inúmeras cervejas?

Estaremos nós condenados a essa resenha-força, focada no resultado, que se limita a mostrar a prova inconteste da bravura alheia, sem deixar espaço para a imaginação e para o exagero?

Alguém poderia me acusar de estar advogando em causa própria, movido pelo temor de que venha à tona algum ato de caridade supostamente praticado por mim em carnavais passados. Esclareço, contudo, que a resenha multimídia costuma ser bem menos humilhante que a resenha apenas falada, na qual o narrador do fato costuma distorcer levemente os atributos da dama em questão, acrescentando-lhe alguns quilos ou retirando-lhe alguns dentes.

Terminei meu exaltado discurso com a célebre frase de José Maria Alkmin, para quem “o que importa não é o fato, mas a versão”, apenas para ver meus interlocutores silenciosos, confusos e estupefatos.

“Quer dizer então que o ponto valeu?”, questionou Breno, rompendo um silêncio constrangedor de quase um minuto.

“Nem a pau, Breno, ela é mais feia que José Serra chupando limão ao acordar”, respondi, resignando-me com a triste constatação de que mais uma tradição foi atropelada pelos tempos modernos.