Sinal dos tempos

Eu não estou tão velho assim. Ainda consigo, por exemplo, me abaixar para pegar uma moeda –- e quase na totalidade das vezes, sem dar um jeito na coluna.

Também consigo ouvir praticamente duas músicas inteiras sem reclamar que música de verdade se fazia no meu tempo, o mesmo valendo para filmes, jogadores de futebol e bolachas recheadas (volta, Mirabel).

Contudo, nada me faz tão velho quanto conversar com Helder e Breno, dois ex-colegas de trabalho que, não obstante sejam apenas uns quatro anos mais novos que eu, fazem com que eu me sinta como alguém que conheceu Hebe Camargo ainda virgem.¹

Isso acontece, por exemplo, quando eu os deixo boquiabertos com a informação de que o preço médio de uma cerveja já foi um real.

“Peraí, uma lata, você quer dizer?” -- questionam eles como se eu estivesse falando de um passado absurdamente distante, lá quando Marechal Deodoro proclamou a República e instituiu o Plano Real.

“Não, não, garrafa mesmo. Já bebi muita cerveja de um real, até na praia” -- respondo, um tanto constrangido.

“Na praia???” -- indagam estupefatos meus interlocutores, na certa imaginando-me tomando uma cervejinha gelada em Porto Seguro, na companhia de índios tupinambás, enquanto aguardava a chegada da nau de Pedro Álvares Cabral.

No começo, confesso, essa imagem de ancião chegou a me incomodar bastante, a ponto de eu fingir ignorância -- o que não foi muito difícil, diria até que o apedeutismo, de modo geral, me vem instintivamente -- quando questionavam qualquer coisa sobre o passado não tão remoto assim: “O quê? Curtindo a vida adoidado? Isso lá é nome de filme? Nunca ouvi falar!”

Hoje em dia, mais seguro e resoluto, prefiro usar essa imagem para dar um ar de sabedoria e respeitabilidade a tudo que eu digo. Nem sempre dá certo, especialmente quando o ouvinte está de fato prestando atenção no que estou falando, mas quero crer que a prática levará à perfeição.

(CONTINUA AMANHÃ)


1. Nota do editor: para quem não sabe, em julho de 2008 ficou estabelecido que todas as comparações e piadas infames envolvendo idade não mais poderiam citar Dercy Gonçalves, tendo o Diretório Nacional determinado que, a partir daquela data, seja usado o nome de Hebe Camargo.

Corporis morbus: ignavia

Faço uso deste espaço para pedir desculpas aos meus dois leitores (não, mãe, você não conta) pela falta de novas postagens.

A razão para isso é que estive em contato com meu caríssimo amigo Maurício Muriçoca, filósofo de fina estirpe que infelizmente padece de uma doença cruel e altamente contagiosa chamada afiloponia.

O breve contato parece ter comprometido minha saúde, eis que eu também passei a manifestar os sintomas desse mal. Mas já estou em tratamento e devo brindá-los com uma nova postagem logo mais.