Antes nunca do que tarde

E o Falta de Esculhambação está de volta, após um ligeiro recesso de quatro meses.

Peço a todos os meus três leitores¹ que eventuais e-mails de protesto, telefonemas desaforados e cartas-bomba queixando-se pela falta de novos textos sejam encaminhados ao editor do blog, a quem dei total liberdade para, na minha ausência, contratar João Ubaldo Ribeiro para manter as atualizações em dia.

Voltamos agora à nossa programação normal.
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¹ Em razão da breve suspensão das atividades, o número de abnegados que acompanham o blog caiu drasticamente, de modo que a estimativa de três leitores inclui a mim mesmo e está arredondada para cima. Doravante, nossa meta será regressar aos áureos tempos em que o Falta de Esculhambação possuía a notável marca de cinco leitores.

Egoísta, s.m. Sujeito mais interessado em si próprio do que em mim


Brasileiro que é brasileiro adora um bordão, um clichê, uma máxima repetida à exaustão como se fosse a mais incontestável verdade. Eu, como não poderia deixar de ser, não fujo à regra e uso meus lugares-comuns de vez em quando -- afinal, ninguém é de ferro.

Contudo, como hipócrita praticante que sou, sempre fico incomodado quando um desses chavões me prejudica diretamente, como, por exemplo, a ideia de que "todo caçula é mimado".

Eu, que sou caçula desde pequeno, sempre senti na pele a cruel discriminação da sociedade neste ponto. E o pior, de forma injusta, pois as espartanas habilidades pedagógicas de meu pai nunca me permitiram fazer o tipo cheio de vontades.

Na verdade, qualquer tentativa de capricho de minha parte costumava ser prontamente repreendida com um discurso de meu estimado genitor: "você é muito mal acostumado! Lá no meu norte não tinha nada disso e nós vivíamos muito bem!", ao que eu responderia algo como "mas pai, você nem é do norte, sua cidade fica na região sudoeste do estado, sertão da Bahia".

É claro que a essa resposta seguiria-se um safanão na orelha para eu deixar de ser contestador, o que me faria lamentar profundamente o fato de o sertanejo ser, antes de tudo, um forte.

Devo reconhecer, entretanto, que alguns representantes da classe não ajudam em nada, a exemplo de meu ex-cunhado, de quem agora posso falar sem temer represálias (não que eu tivesse medo de minha então consorte, já que, como todo mundo sabe, baiano medroso nasce morto. Se eu eventualmente me escondia debaixo da cama quando ela estava naqueles dias era apenas porque, não obstante minha condição de agnóstico, seguia à risca o quanto determinado em Levítico 15:19).

Hum, pensando melhor, deixa esse assunto para lá.

O fato é que, fora aquelas duas ou nove vezes que roubei o carro de meu pai e ainda reclamei por ele estar sem gasolina, nunca me foi dado ter o tipo de comportamento comumente atribuído aos filhos mais jovens, mas mesmo assim sou obrigado a responder pelo estereótipo. Triste sina.

Pior ainda é constatar que os caçulas são discriminados de forma aberta, sem qualquer pudor. Não há nenhum movimento organizado pela defesa de nossos interesses, nenhum neologismo politicamente correto para nos classificar, nenhuma ação afirmativa, nada!

O simples fato de termos nascido depois não nos torna automaticamente egocêntricos. Não é como se fôssemos filhos únicos, aquela raça de mimados cheios de vontades e caprichos.

Sinal dos tempos (continuação)

(Continuação desta postagem. Vamos fingir que eu escrevi "continua mês que vem" e não "continua amanhã" e seguir normalmente com nossas vidas).

Pois bem, eis que, certa feita, entreouvi Helder e Breno em plena Resenha Pós-Carnaval, discutindo qual dos dois teria sido mais bem-sucedido durante os festejos momescos.

Para os não versados na cultura baiana, esclareço: uma das mais belas e importantes tradições soteropolitanas, a Resenha Pós-Carnaval é um ritual seguido à risca por milhares de foliões ao fim da festa de Momo, que consiste basicamente em contabilizar quantas conquistas ao sexo oposto cada um realizou, declarando-se ao fim o vencedor. Tudo com muita classe, claro.

Voltando ao ponto, a dupla de imberbes discutia ardorosamente acerca da aceitação ou não de uma dama de poucos predicados como ponto válido para Breno. Eis então que, com uma celeridade que deveria servir de exemplo para os juízes e tribunais pátrios, fui eleito árbitro daquela contenda -- cabendo-me a difícil tarefa de decidir se a moça era suficientemente bela para figurar na pontuação final, ou suficientemente feia para sequer ser classificada como "ser do sexo feminino", hipótese na qual seria contabilizada como ponto negativo.

"Mas eu não estava lá, não presenciei o fato nem conheci a distinta senhora" -- argumentei -- "não tenho como emitir opinião."

"Ora, Lionel", interjecionou Helder, emendando com uma frase que eu já devia estar acostumado a ouvir a uma altura dessas de minha vida: "não seja idiota. Tenho aqui comigo uma foto do Exu Tranca Rua com quem Breno se atracou em plena Praça Castro Alves!"

Sim, caro leitor. Rompendo com as históricas tradições da Resenha Pós-Carnaval, o destemido ato de Breno houvera sido registrado para a posteridade pela câmera do celular de Helder. O que costumava ser apurado apenas através do depoimento de testemunhas e interrogatório do acusado passou a ser, com a massificação das câmeras digitais, documentalmente comprovado.

Chamem-me de saudosista, mas onde foi parar a resenha moleque, a resenha de várzea, na qual a discussão sobre a validade ou não de um único ponto poderia durar inúmeras cervejas?

Estaremos nós condenados a essa resenha-força, focada no resultado, que se limita a mostrar a prova inconteste da bravura alheia, sem deixar espaço para a imaginação e para o exagero?

Alguém poderia me acusar de estar advogando em causa própria, movido pelo temor de que venha à tona algum ato de caridade supostamente praticado por mim em carnavais passados. Esclareço, contudo, que a resenha multimídia costuma ser bem menos humilhante que a resenha apenas falada, na qual o narrador do fato costuma distorcer levemente os atributos da dama em questão, acrescentando-lhe alguns quilos ou retirando-lhe alguns dentes.

Terminei meu exaltado discurso com a célebre frase de José Maria Alkmin, para quem “o que importa não é o fato, mas a versão”, apenas para ver meus interlocutores silenciosos, confusos e estupefatos.

“Quer dizer então que o ponto valeu?”, questionou Breno, rompendo um silêncio constrangedor de quase um minuto.

“Nem a pau, Breno, ela é mais feia que José Serra chupando limão ao acordar”, respondi, resignando-me com a triste constatação de que mais uma tradição foi atropelada pelos tempos modernos.

Sinal dos tempos

Eu não estou tão velho assim. Ainda consigo, por exemplo, me abaixar para pegar uma moeda –- e quase na totalidade das vezes, sem dar um jeito na coluna.

Também consigo ouvir praticamente duas músicas inteiras sem reclamar que música de verdade se fazia no meu tempo, o mesmo valendo para filmes, jogadores de futebol e bolachas recheadas (volta, Mirabel).

Contudo, nada me faz tão velho quanto conversar com Helder e Breno, dois ex-colegas de trabalho que, não obstante sejam apenas uns quatro anos mais novos que eu, fazem com que eu me sinta como alguém que conheceu Hebe Camargo ainda virgem.¹

Isso acontece, por exemplo, quando eu os deixo boquiabertos com a informação de que o preço médio de uma cerveja já foi um real.

“Peraí, uma lata, você quer dizer?” -- questionam eles como se eu estivesse falando de um passado absurdamente distante, lá quando Marechal Deodoro proclamou a República e instituiu o Plano Real.

“Não, não, garrafa mesmo. Já bebi muita cerveja de um real, até na praia” -- respondo, um tanto constrangido.

“Na praia???” -- indagam estupefatos meus interlocutores, na certa imaginando-me tomando uma cervejinha gelada em Porto Seguro, na companhia de índios tupinambás, enquanto aguardava a chegada da nau de Pedro Álvares Cabral.

No começo, confesso, essa imagem de ancião chegou a me incomodar bastante, a ponto de eu fingir ignorância -- o que não foi muito difícil, diria até que o apedeutismo, de modo geral, me vem instintivamente -- quando questionavam qualquer coisa sobre o passado não tão remoto assim: “O quê? Curtindo a vida adoidado? Isso lá é nome de filme? Nunca ouvi falar!”

Hoje em dia, mais seguro e resoluto, prefiro usar essa imagem para dar um ar de sabedoria e respeitabilidade a tudo que eu digo. Nem sempre dá certo, especialmente quando o ouvinte está de fato prestando atenção no que estou falando, mas quero crer que a prática levará à perfeição.

(CONTINUA AMANHÃ)


1. Nota do editor: para quem não sabe, em julho de 2008 ficou estabelecido que todas as comparações e piadas infames envolvendo idade não mais poderiam citar Dercy Gonçalves, tendo o Diretório Nacional determinado que, a partir daquela data, seja usado o nome de Hebe Camargo.

Corporis morbus: ignavia

Faço uso deste espaço para pedir desculpas aos meus dois leitores (não, mãe, você não conta) pela falta de novas postagens.

A razão para isso é que estive em contato com meu caríssimo amigo Maurício Muriçoca, filósofo de fina estirpe que infelizmente padece de uma doença cruel e altamente contagiosa chamada afiloponia.

O breve contato parece ter comprometido minha saúde, eis que eu também passei a manifestar os sintomas desse mal. Mas já estou em tratamento e devo brindá-los com uma nova postagem logo mais.

Considerações de um baiano no Mineirão

Texto meio antigo que fiz (março de 2008) e vou descaradamente postar aqui para fazer volume nesses primeiros dias de Blog.

Estive em BH na semana passada, e como fã de futebol que sou, não perdi a oportunidade de assistir o clássico "cachorrada" x "bicharada" (ou Atlético x Cruzeiro, como queiram) e de quebra ainda conhecer o belo estádio Governador Magalhães Pinto -- Mineirão é só para os íntimos, eu não sou de tomar essas ousadias logo no primeiro dia. Sou de família. 

Logo de cara, alguns amigos nativos me informaram que eu não devia ir com a camisa do glorioso Esporte Clube Vitória, como havia planejado a princípio, eis que os atleticanos têm uma rixa com os flamenguistas (a qual ninguém conseguiu me explicar as razões), e a camisa rubro-negra poderia ser objeto de confusão. Ok, longe de mim querer criar caso na terra dos outros, troquei de camisa e fui.

Entrando no estádio, logo depois de ser assaltado pelos cambistas, tive a primeira surpresa do dia quando, tendo pedido uma cerveja, trouxeram-me uma Liber *sem álcool*!!! Enfurecido, tive ganas de pular no bar e esganar a atendente, mas fui contido por meus amigos, que me explicaram que os bares do Mineirão não vendem cerveja.

Jesus Cristo, como é possível não se vender cerveja dentro de um estádio?! Será que vocês não vêem que isso não é coisa de Deus? Cerveja e futebol são coisas indissociáveis, como Eurico Miranda e o Vasco, Heloísa Helena e o PT ou Cuba e Fidel Castro.

Meu inflamado discurso foi interrompido pelo começo do jogo, forçando-me a sair da área do bar e ir apreciar o espetáculo (nota: sob pena de ter cassada minha licença poética, sou obrigado a informar que o termo "espetáculo" aqui é usado em sentido lato, com todas as aspas possíveis). No caminho, observei que os poucos clientes dos bares compravam apenas quitutes saudáveis e muito adequados para comer no meio de um estádio com mais de sessenta mil pessoas, como torresmo ou feijão tropeiro (com ovo e bife). 
Mais tarde fui informado que a proibição da venda de bebida nas dependências do estádio decorre de uma recomendação do Ministério Público, que também proibiu o uso de bandeiras e reduziu a capacidade máxima do estádio para pouco mais de 60 mil, visando diminuir os índices de violência. Na minha opinião, o MP deveria se preocupar com coisas mais relevantes. Acho até que se ele proibisse a escalação de Marinho como centroavante do Galo, os protestos diminuiriam e consequentemente, a violência também.

Além do quê, com certeza há algum furo no esquema anti-cerveja dentro do estádio, pois eu não consigo imaginar uma explicação que não seja muita canjibrina para isso:

(a foto não está de cabeça para baixo e é do Bola nas Costas: http://colunas.globoesporte.com/bolanascostas/)
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O lado triste dessa história é que, do dia em que esse texto foi originalmente escrito para hoje, a CBF adotou a mesma política que a Federação Mineira, e proibiu a venda de bebidas alcoólicas em todos os jogos de campeonatos nacionais. Cerveja no estádio agora, só durante o Campeonato Baiano.

Mas aí também, convenhamos, era muita maldade obrigar os torcedores a aturar 90 minutos de tortura sem uma cerveja sequer.