segunda-feira, 6 de julho de 2009

A Divina Web (2ª parte)

(continuação dessa postagem. Sejamos francos, ninguém mais acredita quando eu venho com essa história de "continua amanhã"; eu tenho menos crédito que celular de piriguete).

Assim que entramos, meu guia mostrou-me o primeiro círculo, que encontrava-se estranhamente vazio.

- Ali costumava ser o limbo -- explicou Marconi --, mas o Papa mandou fechar as portas e passar o ponto. Não sabemos o que vão fazer com o espaço ainda, provavelmente uma lan house.

Seguindo adiante, entramos no segundo círculo, que Marconi descreveu como sendo o local destinado aos comentaristas de blogs idiotas.

- Não entendi. Idiota é o comentarista ou o blog? -- indaguei.

- Frequentemente os dois. Mas é para cá que vêm as pessoas que acessam blogs apenas para criticar os textos, apontar erros de português e atacar o blogueiro.

- Bom, isso não me preocupa. É verdade que os acessos ao meu blog dobraram desde que fui citado no Ingresia, de forma que devo agora ter uns seis leitores no total, mas todo mundo é tranquilo, ninguém abusa na caixa de comentários. À exceção de meu irmão, claro.

- Dê tempo ao tempo. -- disse meu guia -- Prosseguindo, temos o terceiro círculo, destinado àqueles que insistem em mandar e-mails com correntes, mensagens de auto-ajuda e spams que, se reencaminhados, ajudarão aquela menina que só tem mais três meses de vida desde 2001.

- É, sei de gente que até hoje espera que a Ericsson comece a fabricar notebooks. Mas tem uma coisa que eu não entendi: os primeiros círculos não eram destinados aos incontinentes? -- questionei, demonstrando meu vasto conhecimento sobre a obra de Dante, obtido graças à Wikipedia.

- E é: eles não têm culpa de ser idiotas. Isso vale também para o quarto círculo, destinado àqueles que escrevem nesse incompreensível dialeto da internet conhecido como "miguxês".

(CONTINUA AMANHÃ)

(NÃO, SÉRIO MESMO)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A Divina Web


Nunca pensei que diria isso, mas essa história de escrever bobagens em um blog até que é interessante: aqui eu posso posar de intelectual e expor toda minha falsa erudição sem ser chamado de pedante ou -- pior -- ser desmascarado, como costuma ocorrer quando falo meus disparates em pessoa e ao vivo.

Por outro lado, estar na blogosfera claramente tem seu lado negativo, como, por exemplo, o fato de eu ocasionalmente me pegar usando neologismos ridículos como "blogosfera".

Além disso, desconfio que o blog está me subindo à cabeça, porque ando tendo uns pesadelos estranhos.

Outro dia mesmo, sonhei que a internet brasileira era o inferno (não chega a ser uma metáfora, convenhamos), e que eu, tal qual um Dante iletrado, encontrava-me desorientado à sua porta.

Ainda estava desnorteado quando percebi um vulto que se aproximava, de forma que gritei com a bravura que me é peculiar:

- Tenha piedade de mim, sou apenas um advogado inocente!

- Decida-se, você está sendo contraditório -- disse o misterioso vulto, que revelou-se como sendo o escritor Marconi Leal e que nesta alegoria meia-boca faz as vezes de Virgílio.

Antes que algum incauto me acuse de ter sonhos nepotistas, por envolver outro membro do clã Leal, informo que sequer conheço o Sr. Marconi. Se não afirmo peremptoriamente que inexiste qualquer relação de parentesco entre nós é apenas porque planejo requerer uma polpuda pensão alimentícia quando ele fatalmente se tornar um escritor multimilionário.

- Para o teu bem, acho melhor que me sigas. Eu serei teu guia. -- falou Marconi -- Levar-te-ei para um lugar onde os fatos não são checados e a gramática é ignorada. Chama-se "internet".

Ainda sem entender bem o porquê de ser melhor segui-lo, notei que sobre a entrada havia um aviso com os seguintes dizeres:

isKéÇi td a gRaMaTiCa, vc q LoGa!! :)))))))))))))))

(CONTINUA AMANHÃ)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Egoísta, s.m. Sujeito mais interessado em si próprio do que em mim


Brasileiro que é brasileiro adora um bordão, um clichê, uma máxima repetida à exaustão como se fosse a mais incontestável verdade. Eu, como não poderia deixar de ser, não fujo à regra e uso meus lugares-comuns de vez em quando -- afinal, ninguém é de ferro.

Contudo, como hipócrita praticante que sou, sempre fiquei incomodado quando um desses chavões me prejudica diretamente, como, por exemplo, a ideia de que "todo caçula é mimado".

Eu, que sou caçula desde pequeno, sempre senti na pele a cruel discriminação da sociedade neste ponto. E o pior, de forma injusta, pois as espartanas habilidades pedagógicas de meu pai nunca me permitiram fazer o tipo cheio de vontades.

Na verdade, qualquer tentativa de capricho de minha parte costumava ser prontamente repreendida com um discurso de meu estimado genitor: "você é muito mal acostumado! Lá no meu norte não tinha nada disso e nós vivíamos muito bem!", ao que eu responderia algo como "mas pai, você nem é do norte, sua cidade fica na região sudoeste do estado, sertão da Bahia".

É claro que a essa resposta seguiria-se um safanão na orelha para eu deixar de ser contestador, o que me faria lamentar profundamente o fato de o sertanejo ser, antes de tudo, um forte.

Devo reconhecer, contudo, que alguns representantes da classe não ajudam em nada, a exemplo de meu ex-cunhado, de quem agora posso falar sem temer represálias (não que eu tivesse medo de minha então consorte, já que, como todo mundo sabe, baiano medroso nasce morto. Se eu eventualmente me escondia debaixo da cama quando ela estava naqueles dias era apenas porque, não obstante minha condição de agnóstico, seguia à risca o quanto determinado em Levítico 15:19).

Hum, pensando melhor, deixa esse assunto para lá.

O fato é que, fora aquelas duas ou nove vezes que roubei o carro de meu pai e ainda reclamei por ele estar sem gasolina, nunca me foi dado ter o tipo de comportamento comumente atribuído aos filhos mais jovens, mas mesmo assim sou obrigado a responder pelo estereótipo. Triste sina.

Pior ainda é constatar que os caçulas são discriminados de forma aberta, sem qualquer pudor. Não há nenhum movimento organizado pela defesa de nossos interesses, nenhuma manifestação no sentido de criar um neologismo politicamente correto para nos classificar, nenhuma ação afirmativa, nada!

O simples fato de termos nascido depois não nos torna automaticamente egocêntricos. Não é como se fôssemos filhos únicos, aquela raça de mimados cheios de vontades e caprichos.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Um chute atrás também te empurra para a frente


E eis que minha consorte me deixou. E o pior é que, como diria Emanuel Kant, ela está na razão pura dela (sem royalties para Franciel Cruz, que, como se sabe, é comunista ortodoxo e não se rende aos preceitos capitalistas): eu provavelmente também não me aguentaria por tanto tempo.


Nesse ponto, aliás, sou como Groucho Marx: não sei se poderia namorar com uma pessoa disposta a namorar comigo, de forma que, concluo, o nosso acerto de comum acordo (no qual ela entrou com o pé e eu entrei com o derrière) talvez tenha sido para melhor mesmo.

É claro que essa racionalização não facilita em nada a minha vida, já que a recém adquirida solteirice me permitiu descobrir que minha habilidade para com o sexo feminino é similar ao meu desempenho no futebol: sou um excelente palpiteiro, mas uma negação com a bola nos pés.

Por ora vou enganando a torcida, alegando que estou sem ritmo de jogo e estudando o adversário, mas suspeito que meus pífios resultados com o sexo oposto ainda renderão farto material para este blog. A conferir.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Sinal dos tempos (continuação)

(Continuação desta postagem. Vamos fingir que eu escrevi "continua mês que vem" e não "continua amanhã" e seguir normalmente com nossas vidas).

Pois bem, eis que, certa feita, entreouvi Helder e Breno em plena Resenha Pós-Carnaval, discutindo qual dos dois teria sido mais bem-sucedido durante os festejos momescos.

Para os não versados na cultura baiana, esclareço: uma das mais belas e importantes tradições soteropolitanas, a Resenha Pós-Carnaval é um ritual seguido à risca por milhares de foliões ao fim da festa de Momo, que consiste basicamente em contabilizar quantas conquistas ao sexo oposto cada um realizou, declarando-se ao fim o vencedor. Tudo com muita classe, claro.

Voltando ao ponto, a dupla de imberbes discutia ardorosamente acerca da aceitação ou não de uma dama de poucos predicados como ponto válido para Breno. Eis então que, com uma celeridade que deveria servir de exemplo para os juízes e tribunais pátrios, fui eleito árbitro daquela contenda – cabendo-me a difícil tarefa de decidir se a moça era suficientemente bela para figurar na pontuação final, ou suficientemente feia para sequer ser classificada como "ser do sexo feminino", hipótese na qual seria contabilizada como ponto negativo.

"Mas eu não estava lá, não presenciei o fato nem conheci a distinta senhora" – argumentei – "não tenho como emitir opinião."

"Ora, Lionel", interjecionou Helder, emendando com uma frase que eu já devia estar acostumado a ouvir a uma altura dessas de minha vida: "não seja idiota. Tenho aqui comigo uma foto do Exu Tranca Rua com quem Breno se atracou em plena Praça Castro Alves!"

Sim, caro leitor. Rompendo com as históricas tradições da Resenha Pós-Carnaval, o destemido ato de Breno houvera sido registrado para a posteridade pela câmera do celular de Helder. O que costumava ser apurado apenas através do depoimento de testemunhas e interrogatório do acusado passou a ser, com a massificação das câmeras digitais, documentalmente comprovado.

Chamem-me de saudosista, mas onde foi parar a resenha moleque, a resenha de várzea, na qual a discussão sobre a validade ou não de um único ponto poderia durar inúmeras cervejas?

Estaremos nós condenados a essa resenha-força, focada no resultado, que se limita a mostrar a prova inconteste da bravura alheia, sem deixar espaço para a imaginação e para o exagero?

Alguém poderia me acusar de estar advogando em causa própria, movido pelo temor de que venha à tona algum ato de caridade supostamente praticado por mim em carnavais passados. Esclareço, contudo, que a resenha multimídia costuma ser bem menos humilhante que a resenha apenas falada, na qual o narrador do fato costuma distorcer levemente os atributos da dama em questão, acrescentando-lhe alguns quilos ou retirando-lhe alguns dentes.

Terminei meu exaltado discurso com a célebre frase de José Maria Alkmin, para quem “o que importa não é o fato, mas a versão”, apenas para ver meus interlocutores silenciosos, confusos e estupefatos.

“Quer dizer então que o ponto valeu?”, questionou Breno, rompendo um silêncio constrangedor de quase um minuto.

“Nem a pau, Breno, ela é mais feia que José Serra chupando limão ao acordar”, respondi, resignando-me com a triste constatação de que mais uma tradição foi atropelada pelos tempos modernos.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Sinal dos tempos

Eu não estou tão velho assim. Ainda consigo, por exemplo, me abaixar para pegar uma moeda – e quase na totalidade das vezes, sem dar um jeito na coluna.

Também consigo ouvir praticamente duas músicas inteiras sem reclamar que música de verdade se fazia no meu tempo, o mesmo valendo para filmes, jogadores de futebol e bolachas recheadas (volta, Mirabel).

Contudo, nada me faz tão velho quanto conversar com Helder e Breno, dois ex-colegas de trabalho que, não obstante sejam apenas uns quatro anos mais novos que eu, fazem com que eu me sinta como alguém que conheceu Hebe Camargo ainda virgem.¹

Isso acontece, por exemplo, quando eu os deixo boquiabertos com a informação de que o preço médio de uma cerveja já foi um real.

“Peraí, uma lata, você quer dizer?” – questionam eles como se eu estivesse falando de um passado absurdamente distante, lá quando Marechal Deodoro proclamou a República e instituiu o Plano Real.

“Não, não, garrafa mesmo. Já bebi muita cerveja de um real, até na praia” – respondo, um tanto constrangido.

“Na praia???” – indagam estupefatos meus interlocutores, na certa imaginando-me tomando uma cervejinha gelada em Porto Seguro, na companhia de índios tupinambás, enquanto aguardava a chegada da nau de Pedro Álvares Cabral.

No começo, confesso, essa imagem de ancião chegou a me incomodar bastante, a ponto de eu fingir ignorância – o que não foi muito difícil, diria até que o apedeutismo, de modo geral, me vem instintivamente – quando questionavam qualquer coisa sobre o passado não tão remoto assim: “O quê? Curtindo a vida adoidado? Isso lá é nome de filme? Nunca ouvi falar!”

Hoje em dia, mais seguro e resoluto, prefiro usar essa imagem para dar um ar de sabedoria e respeitabilidade a tudo que eu digo. Nem sempre dá certo, especialmente quando o ouvinte está de fato prestando atenção no que estou falando, mas quero crer que a prática levará à perfeição.

(CONTINUA AMANHÃ)


1. Nota do editor: para quem não sabe, a partir de julho de 2008 ficou estabelecido que todas as comparações e piadas infames envolvendo idade não mais poderiam citar Dercy Gonçalves, tendo o Diretório Nacional determinado que, a partir daquela data, seja usado o nome de Hebe Camargo.

Corporis morbus: ignavia

Faço uso deste espaço para pedir desculpas aos meus dois leitores (não, mãe, você não conta) pela falta de novas postagens.

A razão para isso é que estive em contato com meu caríssimo amigo Maurício Muriçoca, filósofo de fina estirpe que infelizmente padece de uma doença cruel e altamente contagiosa chamada afiloponia.

O breve contato parece ter comprometido minha saúde, eis que eu também passei a manifestar os sintomas deste mal. Mas já estou em tratamento e devo brindá-los com uma nova postagem logo mais.