sexta-feira, 18 de julho de 2014

Ao Mestre, Com Carinho


Eu não vou mentir a vocês: meu primeiro contato com um livro de João Ubaldo Ribeiro foi forçado goela abaixo. Eu era um garoto imberbe, e ler Sargento Getúlio era só mais uma das obrigações enfadonhas da escola roubando tempo que poderia ser ocupado jogando bola, dançando break ou seja lá o que as crianças faziam nos anos oitenta.

Assim, minha primeira vez com João Ubaldo não foi das melhores – como sói ocorrer com primeiras vezes –, obviamente muito mais pela minha própria inexperiência como leitor do que por alguma falta de habilidade do mestre baiano com as letras.

Alguns anos se passaram e eis que eu descubro na estante do meu pai um livro com um título tão genial e inusitado que o jovem Lionelzinho não teve a menor chance contra a curiosidade adolescente: seu nome era Arte e Ciência de Roubar Galinha.

Umas poucas páginas já foram suficientes para enterrar de vez todo o meu preconceito contra autores exigidos pela escola e cobrados pelos vestibulares. Toda a ojeriza cuidadosamente cultivada por professores de literatura que empurram clássicos cedo demais a alunos que ainda não têm a bagagem necessária para compreendê-los caiu por terra no meu primeiro contato com Zé de Honorina, Luiz Cuiúba, Sete Ratos, Bentão e muitas outras figuras.

Naquela altura, meu gosto pela leitura já estava bem mais consolidado, mas posso dizer sem medo de errar que as crônicas de João Ubaldo foram as grandes responsáveis por despertar minha vontade de escrever – sendo, portanto, indiretamente culpadas por eventuais crimes contra a língua portuguesa cometidos neste Blog.

“Arte e Ciência de Roubar Galinha” também me fez correr atrás de outros textos de João Ubaldo, devorando sua coluna semanal no jornal, seus outros livros de crônicas e romances – além de abrir a minha mente para os clássicos cobrados em aulas de literatura que até então eu ignorava por puro preconceito.

Mas agora, o escritor que tanto me ensinou, tantas risadas me proporcionou e tantas alegrias me deu se foi, e eu me vejo desnorteado e sem saber bem o que fazer quanto a isso.

Não sei se é pretensão para um blogueiro com meia dúzia de leitores como eu escrever um texto sobre um Imortal da Academia Brasileira de Letras, um dos grandes escritores brasileiros de todos os tempos, que tanto influenciou meu estilo.

Na verdade, nem sei se é pretensão minha simplesmente afirmar que meu "estilo" foi influenciado por ele.

Não sei se tenho direito de chorar por uma pessoa que nunca conheci pessoalmente, mas cuja morte me deixa triste como se tivesse perdido alguém da família, tamanha era a humanidade contida em seus textos e a empatia que eles despertavam.

Também não sou crítico literário nem especialista na obra de João Ubaldo, não tenho cacife para estimar o tamanho da perda para a literatura baiana e nacional. São muitas dúvidas e não sei a resposta para nenhuma delas.

Só sei que tenho saudades, e que vou atravessar o resto da vida com essas saudades.

domingo, 15 de setembro de 2013

Guarda-Chuvinha no dos outros é refresco

Em textos passados, já externei por estas bandas minha preocupação com a idade, muito embora conte hoje com pouco mais de trinta primaveras.

Essa inquietação aparentemente precoce não decorre, vejam bem, de alguma vaidade exacerbada de minha parte, até porque há muito eu já me conformei com o fato de que, na loteria genética da família, meu irmão ficou com a beleza e o talento musical, enquanto eu fiquei com a gastrite e os dentes tortos.

Na verdade, eu diria até que minha apreensão com a questão da idade tem fundamentos bem altruístas: se eu já sou ranzinza hoje, é pouco provável que os anos me tornem uma pessoa mais agradável de se conviver.

Outra questão que me causa certa aflição é o famigerado exame do toque retal. Em priscas eras, eu inocentemente acreditava que, quando chegasse a minha vez, ele já teria sido substituído por raios-x ou um comprimido anti-câncer de próstata.

Na minha ingenuidade, sempre ponderei ser inconcebível a humanidade conseguir tirar fotos em alta definição de Marte, mas não fazer ideia do que se passa no meu esfíncter sem se valer de uma invasiva dedada, ainda mais sem pagar o jantar e um cinema antes.

No entanto, meu caro amigo Zé Tadeu tratou de jogar por terra minhas esperanças ao explicar, didaticamente, que uma foto, por melhor que seja, não é tão boa quanto o tato na hora de captar a textura de algo pequeno como um pequeno grão de areia.

Confesso, entretanto, que teria aceitado essa explicação com muito mais tranquilidade se Zé não gesticulasse tanto e tivesse o dedo um pouco menor.


Contudo, nada me deixa mais preocupado com a idade quanto a fraqueza para bebidas alcoólicas que desenvolvi recentemente. 

Não quero me gabar aqui, mas enquanto vocês seres humanos normais precisam gastar fortunas com bebidas para ficar mais relaxados, eu ultimamente tenho me tornado completamente inimputável só de olhar para o rótulo de uma Kronenbier.

Quem vem acompanhando de perto esse grave sintoma de velhice, como não poderia deixar de ser, é a minha doce e serena esposa, que não raro é obrigada a presenciar cenas lamentáveis e ressacas incapacitantes, como que a me afligiu quando acordei com ela pintando as unhas na semana passada:

- Ô mulher, diminui esse barulho infernal de pincel de esmalte, que eu acordei numa ressaca daquelas. Pense num gosto de cabo de guarda-chuva na boca.

- Bom, então talvez  fosse melhor se você não tivesse engolido os guarda-chuvinhas decorativos dos drinques que tomou.

- Mas hein? Mulher, eu não tomo drinques decorados com guarda-chuvinhas. Aliás, eu também não sei de onde você tirou essa história de "drinques" como sinônimo de bebida alcoólica, você sabe que eu sou cabra macho, criado na mais macha tradição do semi-árido nordestino. Nem mesmo bêbado eu iria aceitar um drin... digo, uma bebida com guarda-chuvinha.

- Bom, essa história da macheza meio que já tinha ido para o saco muito antes dos guarda-chuvinhas, quando você dançou Sidney Magal.

- Oi? Não, você entendeu errado, eu não estava dançando. Aquelas palmas foram porque eu estava tentando matar uma muriçoca. Obviamente.

- Entendi. E a rosa na boca, suponho, era para atrair o mosquito para sua armadilha. -- pontuou minha doce e zombeteira consorte -- Mesmo assim, isso não explica por que você ficou imitando Batman no fim da festa.

- Batman?!

- Sim, você ficava correndo pelas mesas gritando "tandandandandandandan... BATMAN!"

- Eu?

- Às vezes você simplesmente pulava e falava com voz de fumante com câncer na garganta "I'M BATMAN!!!"

- Não era fumante, eu estava imitando Christi...

- Isso foi pouco depois de você monopolizar a jukebox e gastar trinta e oito reais para ouvir Deep Purple.

- Foi? Eh, quer dizer, não vejo nada de errado nisso, é uma excelente banda -- argumentei.

- Lionel, era uma festa infantil. Você jogou no lixo o disco de Patati Patatá para poder ouvir Highway Star dezenove vezes seguidas.

- Festa infantil? Bom, pelo menos isso explica o Batman.

- Não, não explica. O tema da festa era Princesas da Disney -- argumentou minha doce e arguta cônjuge, encerrando a conversa.

Oficialmente eu venho atribuindo essa fraqueza para o álcool ao clima seco de Brasília, que claramente comprometeu a composição química do meu fígado[citation needed], mas a triste verdade é que eu realmente estou ficando velho. Daqui a sete anos terei que me submeter ao exame do toque onde mamãe passou talquinho e nem sequer poderei tomar um drinque antes para relaxar.

sábado, 31 de agosto de 2013

Considerações de um baiano no Serejão

Eram 7:30 da manhã de domingo quando eu pulei da cama. Minha doce e sonolenta consorte, ainda com o rosto colado no travesseiro, estranhou:

- Que é isso, Lionel? Acordando de madrugada no domingo? Teve aquele pesadelo com o mascote da Michelin de novo?

- Hein? Não, não, estou indo ver o jogo.

- Jogo?! Que raio de jogo é esse domingo de manhã? -- questionou minha doce e desconfiada esposa, finalmente desgrudando o rosto do travesseiro -- Campeonato da Nova Zelândia?

- Não, muito melhor! Vou atravessar a cidade de carro, pegar o metrô, passar por doze estações e depois caminhar cerca de um quilômetro¹ para assistir a uma partida da Terceira Divisão entre o Brasiliense e o Fortaleza. -- respondi distraído, enquanto procurava minha camisa do Mais Querido da Bahia, o Esporte Clube Ypiranga -- Você quer ir?

Tenho a sensação que minha doce e conformada cônjuge murmurou algo sobre não ter matado a própria mãe com um badogue, mas não estou certo porque a essa altura seu rosto já estava novamente embrenhado no travesseiro.

Foi assim que teve início a minha jornada rumo ao estádio Elmo Serejo Farias, na cidade de Taguatinga, a fim de acompanhar a peleja entre Brasiliense e Fortaleza pela 5ª rodada da Série C do Brasileiro, munido apenas de muito amor pelo futebol, pouco bom senso e, infelizmente, nenhum protetor solar.

Brasília tem tantas nuvens quanto políticos honestos

"Mas Lionel", o distinto leitor poderia questionar, "você não é candango nem cearense. Que diabo tu perdeu em Taguatinga para ir ver jogo da terceira divisão?"

"Curiosidade jornalística. E você flexionou incorretamente a segunda pessoa do verbo perder", responderia eu.

"Largue de ideia que você nem é jornalista. E pode pegar essa segunda pessoa e enfiar no tu", objetaria meu hipotético e malcriado leitor.

De fato, analisando em retrospecto, vejo agora que talvez não tenha sido a mais acertada das decisões, a começar pela indumentária escolhida: a camisa do Ypiranga calha de ter as mesmas cores do uniforme do Brasiliense, algo pouco recomendado quando se pretende assistir a um jogo de forma isenta.

Além disso, o fato de estar de camisa amarela não impediu o bilheteiro capenguinha de me indicar o portão de entrada da torcida do Fortaleza.

Teria ele confundido o meu legítimo sotaque baiano com o modo de falar cearense? Ou talvez padeça de algum tipo estranho de daltonismo que confunde amarelo e preto com azul e vermelho? Depois de muito meditar a respeito, creio que a melhor explicação foi aquela dada por meu caro amigo Franciel Cruz: todo capenguinha é escroto.

De todo modo, somente percebi a enrascada na qual me encontrava depois de adentrar no estádio, quando deparei-me com centenas, não, MILHARES -- tá bom, só umas duas dúzias -- de torcedores fortalezenses olhando desconfiados para meus malsinados trajes.

Naquele momento eu tinha poucas opções. Cheguei a considerar sair do estádio e comprar um novo ingresso, desta feita para a torcida local, mas essa poderia ser considerada uma saída covarde pelos maledicentes que ignoram que baiano frouxo nasce morto.

Além disso, pagar extorsivos CINCO REAIS por um novo ingresso significaria uma cerveja a menos, o que afastou definitivamente essa opção.

Meus pensamentos foram subitamente interrompidos, quando tocou em meu ombro um torcedor usando trajes típicos cearenses: sandália de couro, chapéu de cangaceiro e uma BAINHA DE FACÃO presa no cinto.

Eu, evidentemente, respondi com bravura e galhardia:

- Pelamordedeus não me mate! Eu não sou brasiliense, não chamo ponto de ônibus de parada, não acho normal pagar seis reais num cachorro-quente e não chamo mugunzá de canjica! Adoro o Ceará, sou fã de Didi Mocó, creio até que votei em Ciro Gomes nas eleições de 2002!

- Tudo bem, macho. Mas será que tu pode dar licença? Já tem uns quatro minutos que tu está parado na frente do portão, impedindo a gente de entrar.

Foi então que percebi como o clima de tranquilidade reinava nas arquibancadas. Só vi violência mesmo dentro de campo, com alguns jogadores maltratando a bola. Na torcida, foi tudo na paz, pelo menos até o goleiro João Carlos fazer uma defesa memorável... do lado de dentro do gol. Aí realmente eu vi alguns torcedores mais exaltados.


Mas, convenhamos, não dá para tirar a razão deles.
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¹ Descrição fidedigna do trajeto, sem exageros.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Considerações de um baiano no Stadio Olimpico di Roma

No começo do mês passado, fui chamado às pressas para Roma, pois um grupo de cardeais precisava com urgência de uma consultoria sobre alguns assuntos da mais alta relevância para o cenário político-econômico-religioso mundial (eles queriam saber se Papa que dá aviso prévio antes de renunciar tem direito a sacar o FGTS).

E se a renúncia for com justa causa?

Ao final da extenuante reunião no Vaticano, tive algum tempo livre para fazer turismo. Como todos sabemos, Roma é uma cidade muito rica culturalmente, com inúmeras opções de museus, sítios arqueológicos, monumentos etc. -- enfim, um  monte de coisas interessantes para ver e fazer, algumas das quais bem singulares, sem equivalente no Brasil.

Assim sendo, resolvi ir num jogo de futebol.

Caros brasileiros: esse estranho esporte europeu chama-se "futebol"

Ao comprar o ingresso para a peleja, observei que meu assento seria bem perto da torcida visitante, notícia que foi recebida com certa preocupação por minha doce e apreensiva esposa. "Mulher", disse eu com uma voz empostada que uso quando quero fazer parecer que sei do que estou falando, "fique tranquila, o Roma tem rivalidade é com a Lazio. O jogo é contra a Juventus, não vai ter problema nenhum".

Como ela sabe que em geral eu não sei do que estou falando, minha doce e desconfiada cônjuge apenas fez um muxoxo e se resignou, afirmando que preferia tentar trocar de lugar quando lá estivéssemos.

Chegando no estádio, fui logo procurar meu assento, enquanto explicava à patroa que a Europa não é bagunçada como o Brasil, que lá as cadeiras são numeradas e todo mundo respeita, coisa de primeiro mundo. Eu estava mais ou menos na metade do meu discurso sobre a realidade sócio-econômica nos estádios dos países BRICS quando nós finalmente chegamos ao nosso lugar -- que estava ocupado, obviamente.

Os mais observadores notarão que ele está degustando um belo sanduíche de mortadela enrolado em papel alumínio. Coisa de primeiro mundo

Tudo bem, essas coisas acontecem. Utilizando meu profundo conhecimento da língua italiana (que consiste em gesticular um monte e começar todas frases com "ma che!"), consegui resolver o imbróglio e sentar na minha cadeira.

Foi nesse momento que tive a melhor surpresa da noite: ao contrário do Mineirão e de La Bombonera, no Stadio Olímpico não há qualquer proibição na venda de bebidas alcoólicas!

A emoção foi tão grande que eu acabei enfiando o pé na jaca com força e nem liguei quando a torcida da Juventus começou a atirar bombas e sinalizadores para o nosso lado. Segundo minha doce e perspicaz consorte, eu me limitei a gritar, em português mesmo (ou quase): "enfia essa bomba no ás de loscopita, rebain de xibungo! Não vou comer regue de ninguém, eu tô acostumado é com o plantão duro da Fonte Nova, onde a gente tem que desviar de saco de mijo!".


Aliás, preciso fazer uma ressalva aqui: todo esse episódio das bombas me fez ficar bem otimista com relação à Copa do Mundo no Brasil. Tenho certeza que essa grande instituição que é a Polícia Militar baiana teria colocado o cassetete pra cantar antes mesmo da primeira bomba tocar o chão.


PM não bate, educa

Na falta da PM-BA, tudo que pude fazer foi sair da cadeira conquistada a duras penas para assistir, da escada, o golaço de Totti que quebrou a invencibilidade de cinco jogos da Juventus -- e foi comemorado de forma efusiva e ébria de minha parte, com gritos de ordem como "vai jogar bomba na casa da quenga da sua mãe, juventino figlio de putana" (mais uma vez, relatos da minha doce e alerta companheira, eis que eu não me lembro de nada).

Mas, enfim. Tirando esse problema menor que é receber uma chuva de bombas iguais àquelas que mataram um adolescente na Bolívia na mesma semana, achei o Stadio Olimpico muito bonito, provavelmente está entre os cinco melhores que já fui. A festa da torcida também é um show à parte, e o golaço de Totti nem se fala. Recomendo a visita, só não esqueçam de escolher bem o seu lugar e dar ouvidos à sua cônjuge.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Aglomerada solidão


Durante meu breve retiro espiritual -- período no qual vocês estiveram livres da perniciosa influência deste blog --, pude visitar meu estimado amigo Jotapê na cidade de São Paulo, oportunidade em que cumpri à risca todos os programas turísticos obrigatórios da terra da garoa: comi pastel de vento, fui ludibriado por um taxista e enfrentei um aprazível engarrafamento de 202 km.

Não obstante tais prazeres, nada me impressionou tanto quanto a dieta básica do paulistano médio, consistente de fast food, pizza, churrasco e outros morbíficos que autorizam meu cardiologista a já comprar um carro novo por conta. Fruta, só o limão da caipirinha. Alface é um mito, mais ou menos como Scarlett Johansson: uns dizem que já viram, uns poucos falam até que já comeram, mas no final concluem que é só invenção de Hollywood mesmo.

Contudo, quando em Roma, como os romanos. Assim, sedentário convicto e praticante que sou, não tardei a me adequar aos costumes e tradições locais, de modo que minha alimentação naqueles sofridos dias consistiu essencialmente de feijoada, picanha e cerveja. E ainda dizem que paulista não tem qualidade de vida.

Aliás, João Ubaldo Ribeiro -- seguramente um dos meus escritores preferidos, o qual voltará a receber convites para escrever neste blog tão logo meus advogados derrubem a medida cautelar que me impede de chegar a 100 metros dele -- certa feita escreveu uma crônica na qual apontava a sua péssima qualidade de vida, em razão da sua predileção por doces, frituras e carne.

Conta o mestre que, diante da insistência de sua família e junta médica, viu-se obrigado a rever sua qualidade de vida, passando a fazer exercícios e entregar-se aos prazeres de comer capim no almoço -- tudo visando prolongar "uma existência que poderia ter sido estragada por feijoadas, macarronadas, vatapás, sorvetes e pudins, além de diversões doentiamente sedentárias".

Concluo, assim, que "qualidade de vida" é um termo fluido; pessoas diferentes têm ideias diferentes sobre o seu significado. Mais que isso: têm ideias distintas sobre sua importância. Tomo como exemplo o caso do meu ilustre anfitrião Jotapê, que saiu da Bahia para trabalhar em um banco na capital paulista, e vinha labutando mais que gari na quarta-feira de cinzas.

Embora estivesse indo muito bem profissionalmente, sua adaptação à cidade de São Paulo não foi tão boa, de modo que não pensou duas vezes quando recebeu uma proposta para retornar a Salvador. Seu então chefe, contudo, tentou demovê-lo da ideia:

- Você está louco? Tem certeza que vai aceitar essa proposta?! Ficando em São Paulo você pode chegar até a superintendência do banco! E vai trocar isso pelo quê? Voltar para Salvador, ficar perto da família, perto da praia, ter mais tempo para você, ganhar mais? Só por isso? Você está fazendo uma grande besteira!

Apesar desse conselho altruísta, Jotapê prontamente aceitou a proposta e já está de novo em Salvador. Bom para ele. Desconfio que já tinha pelo menos uma pessoa de olho na vaga, só esperando a desistência para poder fazer a besteira no lugar dele.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Antes nunca do que tarde

E o Falta de Esculhambação está de volta, após um ligeiro recesso de quatro meses.

Peço a todos os meus três leitores¹ que eventuais e-mails de protesto, telefonemas desaforados e cartas-bomba queixando-se pela falta de novos textos sejam encaminhados ao editor do blog, a quem dei total liberdade para, na minha ausência, contratar João Ubaldo Ribeiro para manter as atualizações em dia.

Voltamos agora à nossa programação normal.
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¹ Em razão da breve suspensão das atividades, o número de abnegados que acompanham o blog caiu drasticamente, de modo que a estimativa de três leitores inclui a mim mesmo e está arredondada para cima. Doravante, nossa meta será regressar aos áureos tempos em que o Falta de Esculhambação possuía a notável marca de cinco leitores.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Egoísta, s.m. Sujeito mais interessado em si próprio do que em mim


Brasileiro que é brasileiro adora um bordão, um clichê, uma máxima repetida à exaustão como se fosse a mais incontestável verdade. Eu, como não poderia deixar de ser, não fujo à regra e uso meus lugares-comuns de vez em quando -- afinal, ninguém é de ferro.

Contudo, como hipócrita praticante que sou, sempre fico incomodado quando um desses chavões me prejudica diretamente, como, por exemplo, a ideia de que "todo caçula é mimado".

Eu, que sou caçula desde pequeno, sempre senti na pele a cruel discriminação da sociedade neste ponto. E o pior, de forma injusta, pois as espartanas habilidades pedagógicas de meu pai nunca me permitiram fazer o tipo cheio de vontades.

Na verdade, qualquer tentativa de capricho de minha parte costumava ser prontamente repreendida com um discurso de meu estimado genitor: "você é muito mal acostumado! Lá no meu norte não tinha nada disso e nós vivíamos muito bem!", ao que eu responderia algo como "mas pai, você nem é do norte, sua cidade fica na região sudoeste do estado, sertão da Bahia".

É claro que a essa resposta seguiria-se um safanão na orelha para eu deixar de ser contestador, o que me faria lamentar profundamente o fato de o sertanejo ser, antes de tudo, um forte.

Devo reconhecer, entretanto, que alguns representantes da classe não ajudam em nada, a exemplo de meu ex-cunhado, de quem agora posso falar sem temer represálias (não que eu tivesse medo de minha então consorte, já que, como todo mundo sabe, baiano medroso nasce morto. Se eu eventualmente me escondia debaixo da cama quando ela estava naqueles dias era apenas porque, não obstante minha condição de agnóstico, seguia à risca o quanto determinado em Levítico 15:19).

Hum, pensando melhor, deixa esse assunto para lá.

O fato é que, fora aquelas duas ou nove vezes que roubei o carro de meu pai e ainda reclamei por ele estar sem gasolina, nunca me foi dado ter o tipo de comportamento comumente atribuído aos filhos mais jovens, mas mesmo assim sou obrigado a responder pelo estereótipo. Triste sina.

Pior ainda é constatar que os caçulas são discriminados de forma aberta, sem qualquer pudor. Não há nenhum movimento organizado pela defesa de nossos interesses, nenhum neologismo politicamente correto para nos classificar, nenhuma ação afirmativa, nada!

O simples fato de termos nascido depois não nos torna automaticamente egocêntricos. Não é como se fôssemos filhos únicos, aquela raça de mimados cheios de vontades e caprichos.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Um chute atrás também te empurra para a frente


E eis que minha consorte me deixou. E o pior é que, como diria Emanuel Kant, ela está na razão pura dela (sem royalties para Franciel Cruz, que, como se sabe, é comunista ortodoxo e não se rende aos preceitos capitalistas): eu provavelmente também não me aguentaria por tanto tempo.


Nesse ponto, aliás, sou como Groucho Marx: não sei se poderia namorar com uma pessoa disposta a namorar comigo, de forma que, concluo, o nosso acerto de comum acordo (no qual ela entrou com o pé e eu entrei com o derrière) talvez tenha sido para melhor mesmo.

É claro que essa racionalização não facilita em nada a minha vida, já que a recém adquirida solteirice me permitiu descobrir que minha habilidade para com o sexo feminino é similar ao meu desempenho no futebol: sou um excelente palpiteiro, mas uma negação com a bola nos pés.

Por ora vou enganando a torcida, alegando que estou sem ritmo de jogo e estudando o adversário, mas suspeito que meus pífios resultados com o sexo oposto ainda renderão farto material para este blog. A conferir.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Sinal dos tempos (continuação)

(Continuação desta postagem. Vamos fingir que eu escrevi "continua mês que vem" e não "continua amanhã" e seguir normalmente com nossas vidas).

Pois bem, eis que, certa feita, entreouvi Helder e Breno em plena Resenha Pós-Carnaval, discutindo qual dos dois teria sido mais bem-sucedido durante os festejos momescos.

Para os não versados na cultura baiana, esclareço: uma das mais belas e importantes tradições soteropolitanas, a Resenha Pós-Carnaval é um ritual seguido à risca por milhares de foliões ao fim da festa de Momo, que consiste basicamente em contabilizar quantas conquistas ao sexo oposto cada um realizou, declarando-se ao fim o vencedor. Tudo com muita classe, claro.

Voltando ao ponto, a dupla de imberbes discutia ardorosamente acerca da aceitação ou não de uma dama de poucos predicados como ponto válido para Breno. Eis então que, com uma celeridade que deveria servir de exemplo para os juízes e tribunais pátrios, fui eleito árbitro daquela contenda -- cabendo-me a difícil tarefa de decidir se a moça era suficientemente bela para figurar na pontuação final, ou suficientemente feia para sequer ser classificada como "ser do sexo feminino", hipótese na qual seria contabilizada como ponto negativo.

"Mas eu não estava lá, não presenciei o fato nem conheci a distinta senhora" -- argumentei -- "não tenho como emitir opinião."

"Ora, Lionel", interjecionou Helder, emendando com uma frase que eu já devia estar acostumado a ouvir a uma altura dessas de minha vida: "não seja idiota. Tenho aqui comigo uma foto do Exu Tranca Rua com quem Breno se atracou em plena Praça Castro Alves!"

Sim, caro leitor. Rompendo com as históricas tradições da Resenha Pós-Carnaval, o destemido ato de Breno houvera sido registrado para a posteridade pela câmera do celular de Helder. O que costumava ser apurado apenas através do depoimento de testemunhas e interrogatório do acusado passou a ser, com a massificação das câmeras digitais, documentalmente comprovado.

Chamem-me de saudosista, mas onde foi parar a resenha moleque, a resenha de várzea, na qual a discussão sobre a validade ou não de um único ponto poderia durar inúmeras cervejas?

Estaremos nós condenados a essa resenha-força, focada no resultado, que se limita a mostrar a prova inconteste da bravura alheia, sem deixar espaço para a imaginação e para o exagero?

Alguém poderia me acusar de estar advogando em causa própria, movido pelo temor de que venha à tona algum ato de caridade supostamente praticado por mim em carnavais passados. Esclareço, contudo, que a resenha multimídia costuma ser bem menos humilhante que a resenha apenas falada, na qual o narrador do fato costuma distorcer levemente os atributos da dama em questão, acrescentando-lhe alguns quilos ou retirando-lhe alguns dentes.

Terminei meu exaltado discurso com a célebre frase de José Maria Alkmin, para quem “o que importa não é o fato, mas a versão”, apenas para ver meus interlocutores silenciosos, confusos e estupefatos.

“Quer dizer então que o ponto valeu?”, questionou Breno, rompendo um silêncio constrangedor de quase um minuto.

“Nem a pau, Breno, ela é mais feia que José Serra chupando limão ao acordar”, respondi, resignando-me com a triste constatação de que mais uma tradição foi atropelada pelos tempos modernos.