sábado, 11 de maio de 2013

Crônica de um rubronegro desterrado


Texto que escrevi um ano atrás, a pedido de meu caro amigo Franciel, e que vou postar aqui para ir tirando as teias de aranha do blog enquanto preparo o retorno triunfal do Falta de Esculhambação:

Estava eu tranquilamente curtindo meu feriado, ponderando por que todo mundo quer transar no dia do sexo, mas ninguém quer trabalhar no dia do trabalho, quando toca o telefone. Era meu irmão, Diógenes.

Lionel? Aqui é seu irmão”, disse ele.

Eu sei, até já falei lá no primeiro parágrafo”, respondi.

Já tendo aprendido a ignorar minhas sandices após trinta anos de convivência, Diógenes apenas prosseguiu:

Franciel está pedindo nossa ajuda”.

Essa não”, levantei do sofá, já preocupado: “em qual delegacia ele está?

Que isso, rapaz. Franciel é boa gente, nunca foi preso à toa”, defendeu Diógenes. “Ele apenas estava pensando em colocar uns textos de convidados no site, e seu nome foi citado”.

Como eu normalmente só sou citado quando um oficial de justiça aparece para cobrar dívida, prontamente aceitei o desafio. Assim, aqui estou para contar a vocês como é viver longe de sua terra e — mais importante — do seu time:

É uma merda.

Certo, imagino que vocês estejam esperando algo menos resumido, então deixe-me elaborar um pouco mais: morar longe significa não poder ir ao estádio, não acompanhar o dia-a-dia do seu time, e assim depender de terceiros para ter notícias e saber como o Leão está jogando. E aí, tome-lhe informações desencontradas: a depender de para quem você pergunta, Geovanni pode ser o maior camisa 10 desde Petkovic ou um pereba que não entra no meu baba nem se for o dono da bola.

Mas, tudo bem, estamos chegando no segundo semestre e assim eu poderei ver os jogos do Brasileiro na TV e formar minha própria opinião, certo? Verdade, mas aí entra outra grande dificuldade enfrentada por nós, desterrados, nesse mundo capitalista: a grana.

Sai caro torcer para o Vitória em Brasília. Os garçons cobram bandeira dois na gorjeta para sintonizar a televisão em qualquer jogo que não envolva um time do Rio ou de São Paulo, e o PFC ocasionalmente nem transmite todos os jogos da série B.

Por outro lado, o Vitória eventualmente vem jogar no Serra Dourada, a apenas 210 km de Brasília. Diante da possibilidade de ver o meu time, até não me incomodo de gastar com gasolina, ingressos, cerveja e talvez um hotel. O problema mesmo é quando a minha doce e solidária esposa, companheira como só ela sabe ser, resolve ir comigo e aproveitar a viagem para visitar cada uma das sessenta e duas feiras de Goiânia comprar umas calças, alguns sapatos e sei lá quantas bolsas.

Senhores, ser obrigado a investir na bolsa para ver o Vitória jogar é algo que não desejo a ninguém.

Porém, para que não me acusem de ser mais casquinha do que já sou, devo confessar que o maior problema em ser um desterrado não são os gastos, mas o sentimento de impotência.

Epa, calma lá. Muito embora a minha caixa de e-mail lotada de spam oferecendo Viagra e Cialis possa indicar o contrário, eu na verdade estou falando de outro tipo de impotência.

Explico. Ir ao Barradão, apoiar o time, lamentar as derrotas e comemorar as vitórias in loco faz com que você se sinta parte daquilo tudo — um sentimento que não existe quando estamos, à distância, acompanhando pela TV.

Por mais que eu discuta com o narrador (mas é sempre ele quem começa a me provocar) e passe instruções para Neto Baiano (que nunca me ouve, ô centroavante teimoso), assistir o jogo na TV simplesmente não é a mesma coisa que estar no estádio. E aí vem o sentimento de impotência, a sensação de que nada posso fazer para ajudar o meu time.

Mas, ainda bem, essa é uma sensação que passa rápido. Porque eu sei que posso, sim, fazer algo para ajudar meu time: mesmo à distância eu posso lutar por um Vitória mais democrático, posso manter minha condição de associado e meu direito a voto. E assim, posso ajudar a fazer um Vitória melhor e mais forte.

Porque o Vitória pode estar longe de mim, mas eu nunca estarei longe dele.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Considerações de um baiano no Stadio Olimpico di Roma

No começo do mês passado, fui chamado às pressas para Roma, pois um grupo de cardeais precisava com urgência de uma consultoria sobre alguns assuntos da mais alta relevância para o cenário político-econômico-religioso mundial (eles queriam saber se Papa que dá aviso prévio antes de renunciar tem direito a sacar o FGTS).

E se a renúncia for com justa causa?

Ao final da extenuante reunião no Vaticano, tive algum tempo livre para fazer turismo. Como todos sabemos, Roma é uma cidade muito rica culturalmente, com inúmeras opções de museus, sítios arqueológicos, monumentos etc. -- enfim, um  monte de coisas interessantes para ver e fazer, algumas das quais bem singulares, sem equivalente no Brasil.

Assim sendo, resolvi ir num jogo de futebol.

Caros brasileiros: esse estranho esporte europeu chama-se "futebol"

Ao comprar o ingresso para a peleja, observei que meu assento seria bem perto da torcida visitante, notícia que foi recebida com certa preocupação por minha doce e apreensiva esposa. "Mulher", disse eu com uma voz empostada que uso quando quero fazer parecer que sei do que estou falando, "fique tranquila, o Roma tem rivalidade é com a Lazio. O jogo é contra a Juventus, não vai ter problema nenhum".

Como ela sabe que em geral eu não sei do que estou falando, minha doce e desconfiada cônjuge apenas fez um muxoxo e se resignou, afirmando que preferia tentar trocar de lugar quando lá estivéssemos.

Chegando no estádio, fui logo procurar meu assento, enquanto explicava à patroa que a Europa não é bagunçada como o Brasil, que lá as cadeiras são numeradas e todo mundo respeita, coisa de primeiro mundo. Eu estava mais ou menos na metade do meu discurso sobre a realidade sócio-econômica nos estádios dos países BRICS quando nós finalmente chegamos ao nosso lugar -- que estava ocupado, obviamente.

Os mais observadores notarão que ele está degustando um belo sanduíche de mortadela enrolado em papel alumínio. Coisa de primeiro mundo

Tudo bem, essas coisas acontecem. Utilizando meu profundo conhecimento da língua italiana (que consiste em gesticular um monte e começar todas frases com "ma che!"), consegui resolver o imbróglio e sentar na minha cadeira.

Foi nesse momento que tive a melhor surpresa da noite: ao contrário do Mineirão e de La Bombonera, no Stadio Olímpico não há qualquer proibição na venda de bebidas alcoólicas!

A emoção foi tão grande que eu acabei enfiando o pé na jaca com força e nem liguei quando a torcida da Juventus começou a atirar bombas e sinalizadores para o nosso lado. Segundo minha doce e perspicaz consorte, eu me limitei a gritar, em português mesmo (ou quase): "enfia essa bomba no ás de loscopita, rebain de xibungo! Não vou comer regue de ninguém, eu tô acostumado é com o plantão duro da Fonte Nova, onde a gente tem que desviar de saco de mijo!".


Aliás, preciso fazer uma ressalva aqui: todo esse episódio das bombas me fez ficar bem otimista com relação à Copa do Mundo no Brasil. Tenho certeza que essa grande instituição que é a Polícia Militar baiana teria colocado o cassetete pra cantar antes mesmo da primeira bomba tocar o chão.


PM não bate, educa

Na falta da PM-BA, tudo que pude fazer foi sair da cadeira conquistada a duras penas para assistir, da escada, o golaço de Totti que quebrou a invencibilidade de cinco jogos da Juventus -- e foi comemorado de forma efusiva e ébria de minha parte, com gritos de ordem como "vai jogar bomba na casa da quenga da sua mãe, juventino figlio de putana" (mais uma vez, relatos da minha doce e alerta companheira, eis que eu não me lembro de nada).

Mas, enfim. Tirando esse problema menor que é receber uma chuva de bombas iguais àquelas que mataram um adolescente na Bolívia na mesma semana, achei o Stadio Olimpico muito bonito, provavelmente está entre os cinco melhores que já fui. A festa da torcida também é um show à parte, e o golaço de Totti nem se fala. Recomendo a visita, só não esqueçam de escolher bem o seu lugar e dar ouvidos à sua cônjuge.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Aglomerada solidão


Durante meu breve retiro espiritual -- período no qual vocês estiveram livres da perniciosa influência deste blog --, pude visitar meu estimado amigo Jotapê na cidade de São Paulo, oportunidade em que cumpri à risca todos os programas turísticos obrigatórios da terra da garoa: comi pastel de vento, fui ludibriado por um taxista e enfrentei um aprazível engarrafamento de 202 km.

Não obstante tais prazeres, nada me impressionou tanto quanto a dieta básica do paulistano médio, consistente de fast food, pizza, churrasco e outros morbíficos que autorizam meu cardiologista a já comprar um carro novo por conta. Fruta, só o limão da caipirinha. Alface é um mito, mais ou menos como Scarlett Johansson: uns dizem que já viram, uns poucos falam até que já comeram, mas no final concluem que é só invenção de Hollywood mesmo.

Contudo, quando em Roma, como os romanos. Assim, sedentário convicto e praticante que sou, não tardei a me adequar aos costumes e tradições locais, de modo que minha alimentação naqueles sofridos dias consistiu essencialmente de feijoada, picanha e cerveja. E ainda dizem que paulista não tem qualidade de vida.

Aliás, João Ubaldo Ribeiro -- seguramente um dos meus escritores preferidos, o qual voltará a receber convites para escrever neste blog tão logo meus advogados derrubem a medida cautelar que me impede de chegar a 100 metros dele -- certa feita escreveu uma crônica na qual apontava a sua péssima qualidade de vida, em razão da sua predileção por doces, frituras e carne.

Conta o mestre que, diante da insistência de sua família e junta médica, viu-se obrigado a rever sua qualidade de vida, passando a fazer exercícios e entregar-se aos prazeres de comer capim no almoço -- tudo visando prolongar "uma existência que poderia ter sido estragada por feijoadas, macarronadas, vatapás, sorvetes e pudins, além de diversões doentiamente sedentárias".

Concluo, assim, que "qualidade de vida" é um termo fluido; pessoas diferentes têm ideias diferentes sobre o seu significado. Mais que isso: têm ideias distintas sobre sua importância. Tomo como exemplo o caso do meu ilustre anfitrião Jotapê, que saiu da Bahia para trabalhar em um banco na capital paulista, e vinha labutando mais que gari na quarta-feira de cinzas.

Embora estivesse indo muito bem profissionalmente, sua adaptação à cidade de São Paulo não foi tão boa, de modo que não pensou duas vezes quando recebeu uma proposta para retornar a Salvador. Seu então chefe, contudo, tentou demovê-lo da ideia:

- Você está louco? Tem certeza que vai aceitar essa proposta?! Ficando em São Paulo você pode chegar até a superintendência do banco! E vai trocar isso pelo quê? Voltar para Salvador, ficar perto da família, perto da praia, ter mais tempo para você, ganhar mais? Só por isso? Você está fazendo uma grande besteira!

Apesar desse conselho altruísta, Jotapê prontamente aceitou a proposta e já está de novo em Salvador. Bom para ele. Desconfio que já tinha pelo menos uma pessoa de olho na vaga, só esperando a desistência para poder fazer a besteira no lugar dele.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Antes nunca do que tarde

E o Falta de Esculhambação está de volta, após um ligeiro recesso de quatro meses.

Peço a todos os meus três leitores¹ que eventuais e-mails de protesto, telefonemas desaforados e cartas-bomba queixando-se pela falta de novos textos sejam encaminhados ao editor do blog, a quem dei total liberdade para, na minha ausência, contratar João Ubaldo Ribeiro para manter as atualizações em dia.

Voltamos agora à nossa programação normal.
_________
¹ Em razão da breve suspensão das atividades, o número de abnegados que acompanham o blog caiu drasticamente, de modo que a estimativa de três leitores inclui a mim mesmo e está arredondada para cima. Doravante, nossa meta será regressar aos áureos tempos em que o Falta de Esculhambação possuía a notável marca de cinco leitores.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Egoísta, s.m. Sujeito mais interessado em si próprio do que em mim


Brasileiro que é brasileiro adora um bordão, um clichê, uma máxima repetida à exaustão como se fosse a mais incontestável verdade. Eu, como não poderia deixar de ser, não fujo à regra e uso meus lugares-comuns de vez em quando -- afinal, ninguém é de ferro.

Contudo, como hipócrita praticante que sou, sempre fiquei incomodado quando um desses chavões me prejudica diretamente, como, por exemplo, a ideia de que "todo caçula é mimado".

Eu, que sou caçula desde pequeno, sempre senti na pele a cruel discriminação da sociedade neste ponto. E o pior, de forma injusta, pois as espartanas habilidades pedagógicas de meu pai nunca me permitiram fazer o tipo cheio de vontades.

Na verdade, qualquer tentativa de capricho de minha parte costumava ser prontamente repreendida com um discurso de meu estimado genitor: "você é muito mal acostumado! Lá no meu norte não tinha nada disso e nós vivíamos muito bem!", ao que eu responderia algo como "mas pai, você nem é do norte, sua cidade fica na região sudoeste do estado, sertão da Bahia".

É claro que a essa resposta seguiria-se um safanão na orelha para eu deixar de ser contestador, o que me faria lamentar profundamente o fato de o sertanejo ser, antes de tudo, um forte.

Devo reconhecer, contudo, que alguns representantes da classe não ajudam em nada, a exemplo de meu ex-cunhado, de quem agora posso falar sem temer represálias (não que eu tivesse medo de minha então consorte, já que, como todo mundo sabe, baiano medroso nasce morto. Se eu eventualmente me escondia debaixo da cama quando ela estava naqueles dias era apenas porque, não obstante minha condição de agnóstico, seguia à risca o quanto determinado em Levítico 15:19).

Hum, pensando melhor, deixa esse assunto para lá.

O fato é que, fora aquelas duas ou nove vezes que roubei o carro de meu pai e ainda reclamei por ele estar sem gasolina, nunca me foi dado ter o tipo de comportamento comumente atribuído aos filhos mais jovens, mas mesmo assim sou obrigado a responder pelo estereótipo. Triste sina.

Pior ainda é constatar que os caçulas são discriminados de forma aberta, sem qualquer pudor. Não há nenhum movimento organizado pela defesa de nossos interesses, nenhuma manifestação no sentido de criar um neologismo politicamente correto para nos classificar, nenhuma ação afirmativa, nada!

O simples fato de termos nascido depois não nos torna automaticamente egocêntricos. Não é como se fôssemos filhos únicos, aquela raça de mimados cheios de vontades e caprichos.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Um chute atrás também te empurra para a frente


E eis que minha consorte me deixou. E o pior é que, como diria Emanuel Kant, ela está na razão pura dela (sem royalties para Franciel Cruz, que, como se sabe, é comunista ortodoxo e não se rende aos preceitos capitalistas): eu provavelmente também não me aguentaria por tanto tempo.


Nesse ponto, aliás, sou como Groucho Marx: não sei se poderia namorar com uma pessoa disposta a namorar comigo, de forma que, concluo, o nosso acerto de comum acordo (no qual ela entrou com o pé e eu entrei com o derrière) talvez tenha sido para melhor mesmo.

É claro que essa racionalização não facilita em nada a minha vida, já que a recém adquirida solteirice me permitiu descobrir que minha habilidade para com o sexo feminino é similar ao meu desempenho no futebol: sou um excelente palpiteiro, mas uma negação com a bola nos pés.

Por ora vou enganando a torcida, alegando que estou sem ritmo de jogo e estudando o adversário, mas suspeito que meus pífios resultados com o sexo oposto ainda renderão farto material para este blog. A conferir.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Sinal dos tempos (continuação)

(Continuação desta postagem. Vamos fingir que eu escrevi "continua mês que vem" e não "continua amanhã" e seguir normalmente com nossas vidas).

Pois bem, eis que, certa feita, entreouvi Helder e Breno em plena Resenha Pós-Carnaval, discutindo qual dos dois teria sido mais bem-sucedido durante os festejos momescos.

Para os não versados na cultura baiana, esclareço: uma das mais belas e importantes tradições soteropolitanas, a Resenha Pós-Carnaval é um ritual seguido à risca por milhares de foliões ao fim da festa de Momo, que consiste basicamente em contabilizar quantas conquistas ao sexo oposto cada um realizou, declarando-se ao fim o vencedor. Tudo com muita classe, claro.

Voltando ao ponto, a dupla de imberbes discutia ardorosamente acerca da aceitação ou não de uma dama de poucos predicados como ponto válido para Breno. Eis então que, com uma celeridade que deveria servir de exemplo para os juízes e tribunais pátrios, fui eleito árbitro daquela contenda -- cabendo-me a difícil tarefa de decidir se a moça era suficientemente bela para figurar na pontuação final, ou suficientemente feia para sequer ser classificada como "ser do sexo feminino", hipótese na qual seria contabilizada como ponto negativo.

"Mas eu não estava lá, não presenciei o fato nem conheci a distinta senhora" -- argumentei -- "não tenho como emitir opinião."

"Ora, Lionel", interjecionou Helder, emendando com uma frase que eu já devia estar acostumado a ouvir a uma altura dessas de minha vida: "não seja idiota. Tenho aqui comigo uma foto do Exu Tranca Rua com quem Breno se atracou em plena Praça Castro Alves!"

Sim, caro leitor. Rompendo com as históricas tradições da Resenha Pós-Carnaval, o destemido ato de Breno houvera sido registrado para a posteridade pela câmera do celular de Helder. O que costumava ser apurado apenas através do depoimento de testemunhas e interrogatório do acusado passou a ser, com a massificação das câmeras digitais, documentalmente comprovado.

Chamem-me de saudosista, mas onde foi parar a resenha moleque, a resenha de várzea, na qual a discussão sobre a validade ou não de um único ponto poderia durar inúmeras cervejas?

Estaremos nós condenados a essa resenha-força, focada no resultado, que se limita a mostrar a prova inconteste da bravura alheia, sem deixar espaço para a imaginação e para o exagero?

Alguém poderia me acusar de estar advogando em causa própria, movido pelo temor de que venha à tona algum ato de caridade supostamente praticado por mim em carnavais passados. Esclareço, contudo, que a resenha multimídia costuma ser bem menos humilhante que a resenha apenas falada, na qual o narrador do fato costuma distorcer levemente os atributos da dama em questão, acrescentando-lhe alguns quilos ou retirando-lhe alguns dentes.

Terminei meu exaltado discurso com a célebre frase de José Maria Alkmin, para quem “o que importa não é o fato, mas a versão”, apenas para ver meus interlocutores silenciosos, confusos e estupefatos.

“Quer dizer então que o ponto valeu?”, questionou Breno, rompendo um silêncio constrangedor de quase um minuto.

“Nem a pau, Breno, ela é mais feia que José Serra chupando limão ao acordar”, respondi, resignando-me com a triste constatação de que mais uma tradição foi atropelada pelos tempos modernos.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Sinal dos tempos

Eu não estou tão velho assim. Ainda consigo, por exemplo, me abaixar para pegar uma moeda –- e quase na totalidade das vezes, sem dar um jeito na coluna.

Também consigo ouvir praticamente duas músicas inteiras sem reclamar que música de verdade se fazia no meu tempo, o mesmo valendo para filmes, jogadores de futebol e bolachas recheadas (volta, Mirabel).

Contudo, nada me faz tão velho quanto conversar com Helder e Breno, dois ex-colegas de trabalho que, não obstante sejam apenas uns quatro anos mais novos que eu, fazem com que eu me sinta como alguém que conheceu Hebe Camargo ainda virgem.¹

Isso acontece, por exemplo, quando eu os deixo boquiabertos com a informação de que o preço médio de uma cerveja já foi um real.

“Peraí, uma lata, você quer dizer?” -- questionam eles como se eu estivesse falando de um passado absurdamente distante, lá quando Marechal Deodoro proclamou a República e instituiu o Plano Real.

“Não, não, garrafa mesmo. Já bebi muita cerveja de um real, até na praia” -- respondo, um tanto constrangido.

“Na praia???” -- indagam estupefatos meus interlocutores, na certa imaginando-me tomando uma cervejinha gelada em Porto Seguro, na companhia de índios tupinambás, enquanto aguardava a chegada da nau de Pedro Álvares Cabral.

No começo, confesso, essa imagem de ancião chegou a me incomodar bastante, a ponto de eu fingir ignorância -- o que não foi muito difícil, diria até que o apedeutismo, de modo geral, me vem instintivamente -- quando questionavam qualquer coisa sobre o passado não tão remoto assim: “O quê? Curtindo a vida adoidado? Isso lá é nome de filme? Nunca ouvi falar!”

Hoje em dia, mais seguro e resoluto, prefiro usar essa imagem para dar um ar de sabedoria e respeitabilidade a tudo que eu digo. Nem sempre dá certo, especialmente quando o ouvinte está de fato prestando atenção no que estou falando, mas quero crer que a prática levará à perfeição.

(CONTINUA AMANHÃ)


1. Nota do editor: para quem não sabe, em julho de 2008 ficou estabelecido que todas as comparações e piadas infames envolvendo idade não mais poderiam citar Dercy Gonçalves, tendo o Diretório Nacional determinado que, a partir daquela data, seja usado o nome de Hebe Camargo.

Corporis morbus: ignavia

Faço uso deste espaço para pedir desculpas aos meus dois leitores (não, mãe, você não conta) pela falta de novas postagens.

A razão para isso é que estive em contato com meu caríssimo amigo Maurício Muriçoca, filósofo de fina estirpe que infelizmente padece de uma doença cruel e altamente contagiosa chamada afiloponia.

O breve contato parece ter comprometido minha saúde, eis que eu também passei a manifestar os sintomas desse mal. Mas já estou em tratamento e devo brindá-los com uma nova postagem logo mais.